Na sequência da frustrante época de 2023/2024, no passado mês de maio, escrevi dois artigos em que argumentei que a causa principal de insucesso do futebol do Benfica, nos últimos cinco anos, residiu na política de mercantilismo financeiro prosseguida pela Direção do clube, que se sobrepôs aos objetivos desportivos.
Para concretizar o conceito, lembremo-nos da evolução do plantel de pontas-de-lança do Benfica. No período áureo recente, tivemos Cardozo, Lima, Rodrigo e Jonas. Posteriormente, Darwin Nuñez, Gonçalo Ramos e Henrique Araújo (um grande talento que o Benfica transformou num fantasma). Na época passada, em que o golo escasseou, como água no deserto, tivemos Arthur Cabral, Tengstedt e Leonardo, marcos sinalizadores de uma política de recrutamento confrangedora.
O hipermercado desportivo em que o Benfica recentemente se transformou, vende rápido. Veja-se o muito jovem e talentoso João Neves, que durou menos de um ano na equipa principal. Mas, infelizmente, vende com mais aceleração do que reflexão. O diário espanhol As, destacava recentemente o volume de vendas realizado pelo Benfica nos últimos anos, explicitando as dez maiores vendas do clube. Mas para os benfiquistas, o que importa é como se aplicaram os recursos obtidos, ao serviço da equipa. A parte das vendas dedicada a contratações (para não recuarmos a RdT, João Victor, etc.), na época passada e na atual, consubstanciou-se em jogadores como Jurásek, Carreras, Leonardo, Cabral, Tengstedt, Scheldrup e agora, Beste e Leandro Barreiros. Vários deles pensados na óptica do mercantilismo financeiro (mais-valias em transferencias futuras), outros sendo recrutamentos para os quais não se vislumbram razões sólidas desportivas ou financeiras. O comparativo do nível médio destes jogadores, com os que compuseram os ainda recentes planteis ganhadores, é assustador.
No balanço da época de 2023/2024, feito pelo Presidente Rui Costa, foi afirmado perentoriamente que os erros e lacunas, nomeadamente na composição do plantel, tinham sido identificados e seriam firmemente corrigidos. Contudo, a venda apressada de João Neves, as modestas contratações efetuadas (Beste e Barreiros) e a exibição nula da primeira jornada da Liga, apontam noutra direção. Face a este inicio, o balanço realizado, parece ser uma visão plana, superficial e até falsa dos problemas da equipa.
O fraquíssimo desempenho da equipa é a soma de várias debilidades: o mercantilismo financeiro (último exemplo, João Neves), erros sucessivos nas contratações e uma equipa técnica visivelmente incapaz de liderar, de motivar e de encontrar soluções, numa época de convulsões.
Sabemos como a situação irá prosseguir. No imediato, jogadores, equipa técnica e Direção, dirão que confiam na realização dos objetivos da época. Mas é difícil procurar a verdade, e simultaneamente aceitar o mundo atual do futebol do Benfica. No atual patamar de competitividade, não existe capacidade para êxitos de vulto. A política do clube levou a equipa à vanguarda da mediocridade. E, se num primeiro tempo, o conservadorismo dos dirigentes, continuará a negar a cadeia de causas, numa segunda fase, chegará o tradicional comunicado à CMVM com parágrafos dedicados às modificações de última hora introduzidas. Provavelmente, demasiado tarde.
Lamento ter de dizer que a época de 2023/2024 afinal não morreu. Nem sequer é passado.
Nuno Paiva Brandão Sócio do Benfica 50.166