Os mais desatentos foram certamente surpreendidos com a repercussão do caso Vinícius. Porém, quem acompanha futebol sabe perfeitamente que não foi a primeira, nem a segunda ou a terceira vez que o atacante brasileiro foi vítima de discriminação por parte de adeptos de equipas rivais. O que se passou no Mestalla não se tratou de um ato isolado, mas sim de algo repetido que tem sido visto ao longo de toda a temporada. O que estranhou os dirigentes da liga espanhola foi a dimensão que o mesmo atingiu.
E se dúvidas disto existissem, as declarações precipitadas e pouco sérias do presidente da liga, Javier Tebas, após um post de Vinícius que criticava a aceitação da La Liga perante os insultos racistas, vierem incendiar um mundo que já tinha rastilho por todo o lado. As suas palavras não só o colocaram em confronto com o avançado do Real Madrid, como deram a sensação de negligência perante a situação.
"Situações pontuais" ou "O futebol não é racista" foram algumas das expressões utilizadas por Tebas durante o bate-boca com o jogador e que levaram o próprio a colocar-se numa situação bastante frágil. Tebas chegou mesmo a afirmar que Vinícius recebia insultos porque era um grande jogador, como se o facto de o brasileiro ser um grande jogador validasse o comportamento racista dos adeptos. É certo que o presidente da liga não quis passar essa ideia, mas foi esse pressuposto que as suas palavras transmitiram.
A verdade e mais uma vez provando o poder que o desporto, tendo no futebol o seu expoente máximo, pode ter no universo comunicacional, esta situação não deixou ninguém indiferente. Transversal a todo o mundo, a todos os desportos e a diversos campos sociais, o mundo uniu-se em torno de Vinícius. De clubes a atletas, passando por presidentes, muitos foram aqueles que quiserem ter uma palavra a dizer.
No entanto, o discurso de Javier Tebas toca num ponto extremamente interessante, a malícia humana. Até quando e com o poder que o futebol tem na sociedade, situações como esta vão ter lugar? Até quando vamos assistir ao discurso de ódio e à canibalização dos comportamentos vindos da bancada? Até quando vamos aceitar socialmente a forma como estes adeptos usam e abusam da liberdade de expressão que ultrapassa em muitos momentos a barreira da educação?
Sabemos, de antemão, que o ecossistema do futebol é altamente polarizado e emocional, o que por sua vez, leva a que ainda exista a tendência para atitudes como estas. Assim, é fundamental repensarmos a forma como temos comunicado este tema e chegarmos à conclusão de que a abordagem não tem surtido o efeito necessário. Vemos campanhas serem produzidas, declarações serem proferidas ou punições (que devem ser cada vez mais rigorosas e assertivas) serem aplicadas com o objetivo de erradicar o racismo, mas a verdade é que ele continua a existir nas mais diversas ligas que compõem o mundo futebolístico.
Temos "esgotado" comunicacionalmente esta temática, mas ainda ninguém parou para pensar que porventura temos igualmente estado este tempo todo a comunicar de forma errada? Acima de punições ou palavras é necessário mudar mentalidades. O próprio futebol precisa de mudar e refletir sobre a forma como tem tratado o tema da discriminação, explorando novas maneiras de comunicar para o exterior, mas essencialmente como comunicar a questão de forma interna. Não se pode pedir aos adeptos que mudem, se dentro das quatro linhas essa é a realidade a que assistem recorrentemente.
Esta é a mensagem que o futebol tem de passar, compreender e alavancar, pois, continua a ser das poucas profissões onde a discriminação e o racismo (ainda) têm lugar. Só assim veremos se "é o sal que não salga ou a terra que não se deixa salgar".
Autor: Duarte Amaro, Consultor de Comunicação na AMP