Gustavo Silva

Gustavo Silva Advogado, sócio 19.799 do Benfica

Ética e mudanças no Benfica após Vieira

São muitos e variados os desafios que a direção do Benfica atualmente enfrenta: a instabilidade desportiva (e não só) na equipa de futebol profissional, o desempenho sofrível em várias modalidades ou até a recente dificuldade na definição dos elementos da administração da SAD são temas que desafiam Rui Costa e a sua equipa diretiva.

Contudo, acima de tudo isso, o Benfica tem uma exigência ainda maior para com o Clube, para com a sua história e para com a sociedade: uma exigência ética e de modelo social.

E essa exigência ética tem de ser implacável, qualquer que seja o custo a nível desportivo ou financeiro. O Benfica não pode vacilar perante comportamentos que não estejam ao nível dos princípios e valores dos seus fundadores ou da tradição que orgulha o sócio e adepto do Benfica.

Neste sentido, mais do que os problemas da equipa de futebol (e de parte das modalidades), nada preocupa tanto os Benfiquistas como as notícias e informações vindas a público onde, acima de tudo, se levantam questões acerca daquilo que resumo numa palavra: Ética.

Luís Filipe Vieira goza da presunção de inocência e caberá à Justiça definir se cometeu (ou não) algum ilícito de natureza criminal. Em sede própria, com o seu ritmo e rigor, para bem da Democracia. Sem mais nem menos.

Não obstante, no campo ético, resulta evidente que o que Vieira goza (e gozou) foi com o Benfica, com os Benfiquistas e com os portugueses em geral.

Vieira desenvolveu muito o Benfica e deixa inegavelmente obra feita, mas não esteve ao nível ético daquilo que se exige (e espera) de um presidente do Benfica. E isso é incontornável e indesculpável.

Perante esta factualidade, exige-se à direção liderada por Rui Costa uma resposta firme e inequívoca perante o desvio (pelo menos) ético de Vieira (e de quem mais se possa vir a apurar), assegurando assim o interesse maior do Clube.

Há momentos em que o mero silêncio pode ser visto quase como cúmplice, nomeadamente se a exigência ética for elevada, como é o caso do Benfica. Custe o que custar, o Benfica tem de ser um exemplo social.

Por tudo isso, o Clube tem de ter (e comunicar) uma posição formal clara em relação à situação, a qual esteja de acordo com esse padrão de exigência. Isto em relação ao processo de Vieira, mas igualmente em relação à auditoria cujas conclusões ainda se aguardam ou perante quaisquer outras questões que possam ter lesado o Benfica.

É ainda cedo para efectuar um balanço, mas a direção liderada por Rui Costa tem por vezes causado no universo benfiquista uma ideia de alguma apatia e aparente dificuldade para agir, decidir e até em comunicar em tempo útil, dando a desconfortável sensação de que os destinos do Benfica poderão passar mais pela simples força das circunstâncias do que propiamente por decisões predefinidas e claras tomadas por parte da direção nos timings certos.

Tenho Rui Costa como um Homem sério e honrado. Acresce a isso o facto de que tem dado sinais de querer efetivamente mudar o Benfica e "expurgar" alguns dos poderes instalados no Clube que não se traduzem em benefício para o Clube. A este propósito, o recente "veto" à entrada a Pires de Andrade na SAD do Benfica é um acto corajoso ao que seria uma afronta aos Benfiquistas. Pires de Andrade em nada serve o Benfica e isso é evidente para a grande maioria dos sócios.

Contudo, a meu ver, as mudanças são (ainda) insuficientes. O Benfica deve procurar mudar e abolir certas práticas e modos de estar aburguesados. Essa mudança faz-se necessariamente através de Benfiquistas que sejam uma efectiva mais-valia e que aportem sangue novo e novos conhecimentos para o Clube. É chegado o momento de dizer, de forma expressa e inequívoca, que os "interesses difusos" são um "tempo passado" no Benfica.

O Benfica precisa que a competência, a seriedade e a ética sejam os valores essenciais na reforma e desenvolvimento do Clube, assente em vários saberes e plúrimas experiências profissionais. E essa exigência deverá ser transversal no Clube: do administrador ao vigilante, do diretor ao roupeiro.

Aproximam-se horas de decisão no Benfica, aceleradas por toda esta situação referente a Vieira e à composição da SAD. Essas decisões terão de ser estruturais e passar por reformar e dinamizar o Clube, reforçando as boas práticas e cortando em tudo o que não dignifique o Clube. Há alturas em que não basta "ficar em cima do muro" de forma neutra e esta é um delas, perante o que está em causa: a Honra do Benfica.

Isso requer da parte de Rui Costa decisões corajosas e determinadas, ainda que possam não ser simples ou até populares (dentro e fora do Clube). Mas é esse o desígnio de um Presidente do Benfica e é essa a expectativa dos 84% de Benfiquistas que lhe deram o voto de confiança no passado mês de Outubro.

Perante isto, é caso para dizer que a bola está agora nos pés de Rui Costa, para que decida a favor do Benfica e sempre com um elevado padrão de exigência ética.

Tem a palavra o Maestro.

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