Gustavo Silva

Gustavo Silva Advogado, sócio 19.799 do Benfica

Quo Vadis Jesus?

Após a vitória frente ao Dínamo Kiev e a importante passagem aos oitavos de final da Liga dos Campeões, a questão "Para onde vais, Jesus?" revelou-se de tal forma, que surge hoje como "o elefante no meio da sala" da vida do Benfica.

Confesso que não tenho memória de uma reação tão adversa do Estádio da Luz a uma vitória, sobretudo com a importância por todos reconhecida.

O motivo é naturalmente o desconforto provocado por Jorge Jesus na nação benfiquista e que se tem agudizado ultimamente. E, nesse sentido, a vitória da passada quarta-feira é especialmente reveladora por não ser uma "mera" reação (mais ou menos habitual na realidade do futebol) ao insucesso desportivo, mas antes algo mais profundo e endémico que sucedeu mesmo durante tão importante vitória.

Parece difícil, sobretudo a quem não sabe o que é o Benfica, entender o que se passa…. "Mas porquê, se o Homem é um grande treinador!? E ganhou tantos troféus!? E se percebe tanto de futebol!?" são expressões argumentadas amiúde para questionar/retorquir perante os anticorpos que Jorge Jesus indubitavelmente criou nos adeptos do Benfica.

Poucos serão os benfiquistas que não reconhecem qualidades técnicas a JJ e profundo conhecimento de campo e do jogo. Poucos serão também os benfiquistas que não estão gratos a Jesus pelos troféus conquistados e pelo melhor futebol praticado nos últimos 30 anos pela equipa de futebol do Benfica. Eu faço parte daqueles que reconhecem tudo isto.

Contudo, há algo que carateriza o Benfiquista e que se traduz naquela convicção de que o Benfica é (e tem de ser) modelo, exemplo de conduta e de orgulho na sua simples referência, em qualquer ocasião. E tal desiderato vai muito para além do futebol.

A emoção única associada a palavras como "Glorioso", "Mística" ou "Manto Sagrado" é um fenómeno muito próprio de paixão por um Clube, mas sobretudo por um Ideal. E um Ideal com quase 120 anos de existência tem necessariamente de se adaptar ao passar do tempo, mas não pode, a qualquer custo, subverter a sua essência. Daí ser um Ideal e não uma "mera" ideia ou conceção, mais ou menos passageira. Por isso atravessou gerações e deverá perpetuar-se para gerações vindouras.

Cresci com "gente feita" a emocionar-se ao falar do Benfica. Não propriamente de vitórias ou conquistas (e felizmente são imensas), mas sobretudo de certos gestos, atitudes e pormenores associados à vida do Benfica - dentro e fora de campo - que me fizeram ter a certeza que era "desta cepa" de que era feito. Aquele arrepio e sentimento de pertença a um Ideal positivo que nos orgulha em ser do Benfica.

Dito isto, um treinador do Benfica (sobretudo o da equipa de futebol), enquanto seu representante, tem necessariamente de personificar esse Ideal. Isso exige desportivismo, correção, educação e uma forma de estar "à Benfica". E isso não pode ser visto como uma fraqueza ou significar menor competitividade (a qual é evidentemente essencial).

E é precisamente neste "campo" que JJ não é o treinador que o Benfica precisa. Jesus contraria de forma cada vez mais evidente esse Ideal com quase 120 anos. Os exemplos são numerosos e por demais evidentes. Digamos eufemisticamente, e apenas como exemplo, que qualquer treinador que utilize (e destaque) habitualmente o pronome pessoal "eu" ao invés do "nós", não representa a nação benfiquista ou tão pouco o lema sagrado do Clube.

O adepto do Benfica tem orgulho no Clube. Tem orgulho na equipa. Mas infelizmente, julgo que talvez seja sobretudo este o motivo pelo qual não tem actualmente orgulho no seu treinador. E isso não tem a ver com resultados, como se viu na quarta-feira. Nem com "exibições". Neste aspeto, pese embora o facto de as exibições futebolísticas da equipa não serem ultimamente de encantar, as exibições que actualmente os benfiquistas têm mais dificuldade em aceitar são as que o "mister" tem protagonizado com regularidade…

A outrora relação reciprocamente profícua entre SLB e JJ é hoje uma miragem e não faz sentido para qualquer uma das partes. É como que uma recordação de uma grande paixão a qual, passado aquele encantamento inicial, se esfumou com o passar do tempo, precisamente quando os intervenientes se conhecem e revelam até à sua "essência".

Esta situação evidente para os benfiquistas traz-me à memória o fabuloso poema de Eugénio de Andrade, denominado "Adeus", que termina desta forma:

Dito isto, importa afastar com veemência os profetas da desgraça. O Benfica não está em crise, pelo que deverão procurar pregar em outras paragens.

O Benfica também não está dividido. Estamos unidos. Devemos estar. Existe uma direção recém eleita que tem o apoio e confiança da maioria dos benfiquistas e a legitimidade democrática de uma vitória eleitoral muito expressiva. O benfiquista sabe que "Roma e Pavia não se fizeram num dia", embora não esqueça a importância de tomar decisões de forma clara.

Nesta conformidade, independentemente da resposta à pergunta "Para onde Jesus vai?" importa sobretudo que se decida já que Jesus não fica (para além do final da época).

E essa decisão não deve depender de resultados ou exibições da equipa até ao próximo mês de Maio (oxalá sejam excelentes), mas alicerçar-se na falta de perfil de Jesus para representar o Benfica e os seus valores centenários. E, por isso, deverá ser igualmente irrelevante para a decisão, para onde Jesus vai (ou possa ir).

Uma decisão que se me afigura evidente, sem dramas, que deverá ser concretizada sempre com elevação, respeito e tranquilidade, mas com a clareza de que o Benfica precisa de construir o futuro.

E se Jesus foi passado e é - por ora - presente, não será futuro para o Benfica.

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