A Assembleia-Geral extraordinária da última sexta-feira deixou clara uma desunião que em nada beneficia o Sport Lisboa e Benfica.
Para um Clube que prevê expressamente nos seus estatutos (artigo 5.º, n.º 2), enquanto símbolo, "como condição primeira de grandeza a divisa E PLURIBUS UNUM para definir a união entre todos os associados", o momento atual do SLB colide com a união estatutária e histórica entre sócios.
A discussão mais ou menos técnica/jurídica que se verificou na AG acerca da (im)possibilidade de votação do regulamento eleitoral, cujo objectivo essencial se funda na existência de voto "físico" em urna (salvo pontuais exceções) e contagem imediata dos mesmos (aliada a outros mecanismos de controlo), resume-se não a uma ideia de rejeição das novas tecnologias ou de um regresso ao "passado", mas tão somente a uma ideia base: atualmente os sócios do Benfica não confiam na direção do Clube.
Não importa discorrer acerca dos motivos de tal desconfiança (já muito foi dito), mas é evidente que se encontra instalado um clima em que urge repor a confiança dos sócios na direção, relação essencial de qualquer instituição, mormente com a dimensão do SLB.
Em suma, e fazendo o balanço do que se passou, ressalvando a importância de ter ocorrido, confesso que não gostei da AG por vários motivos, pelo que, enquanto benfiquista, estou preocupado com o presente e necessariamente o futuro do Benfica.
Desde logo, a incapacidade e impreparação do presidente da mesa da Assembleia Geral foi gritante e demonstrou à saciedade um princípio essencial que deve estar presente no Benfica: devem pertencer aos órgãos do Benfica pessoas que sejam, de facto, capazes de prestar um bom serviço ao Clube. E, neste caso, António Pires de Andrade demonstrou não ter capacidade (ou sequer jeito) para o cargo (certamente terá muitas outras qualidades) e, por isso, enquanto Benfiquista, jamais deveria ter aceitado ser membro da Assembleia Geral.
Os membros de órgãos estatutários não podem ser convidados por amizades, interesses ou outras quaisquer razões mais ou menos válidas que não se baseiem na competência. Para além disso, a aceitação desses cargos deve igualmente pressupor uma ponderação individual do sócio acerca da sua capacidade (ou falta dela) para desempenhar determinada função, por muito honroso e/ou prestigiante que o convite possa ser.
Isto porquanto servir o Benfica não é cousa pouca e, como tive oportunidade de relembrar ontem ao senhor Presidente da Mesa da AG, no caso concreto a Assembleia Geral é o "órgão onde reside o poder supremo do clube" (artigo 49.º, n.º 1) e não pode ser constituído por "curiosos" ou membros de "conveniência", dado que o Presidente da Mesa da AG é (ou deve ser) efectivamente o representante máximo dos sócios do Benfica.
Deve, por isso, ser independente e não seguidista da direção ou qualquer outro interesse e até de opiniões próprias, como infelizmente sucedeu e não deverá repetir-se. Diria até que o nosso actual Presidente da Mesa tirou nesta AG um certo gosto no confronto e na desconsideração que teve para com alguns sócios, como se tivesse necessidade em provar algo a si ou a terceiros.
Por outro lado, outro facto que não gostei na AG foi a notória ação concertada dos subscritores da AG e apoiantes de Francisco Benitez, os quais, em meu entender, procuraram de alguma forma incendiar o clima da AG e uma notoriedade pelo "ruído". Ressalvo que foi meritório e digno do maior elogio o esforço que efetuaram para que esta AG se realizasse. Foram estoicos e merecem o reconhecimento dos sócios do SLB pelo que fizeram e obtiveram.
Contudo, considero evitável (leia-se lamentável) a passagem por vezes abrupta de muitos destes apoiantes para uma agressividade e insulto desnecessários que se mesclaram entre um registo eleitoralista básico e uma teatralidade exacerbada, que em nada contribui para o que ali se debatia e procurava obter. Há que ressalvar, a bem do rigor, várias intervenções elegantes, bem preparadas e objectivas de alguns desses signatários, não embarcando na "propaganda" nem no belicismo fácil e para o "aplauso".
Como benfiquista livre e descomprometido, a convicção com que saí da AG é a de que Francisco Benitez e o seu movimento não representam nem personificam aquilo que entendo dever ser o registo e mindset do futuro Presidente do meu Clube. Mudar terá de ser necessariamente para melhor e não apenas para mudar. E, em boa verdade, o estilo adotado não me inspira a necessária confiança.
Uma outra ideia que para mim resultou clara da AG é a de que Rui Costa quererá, de facto, mudar o Benfica. Até aqui tudo bem. O problema que se coloca é se consegue tal desiderato. E, pelo que foi visto na Assembleia, terá muita dificuldade (e não sei se sequer uma real capacidade) em seguir esse caminho.
Rui Costa aparentou muitas vezes durante a noite ser, por um lado, um homem só, mas, por outro lado, igualmente "refém" dos seus pares de direção. A questão que se coloca é: mas porquê?
Para mais, diga-se, enquanto direção, penso que revelaram uma preocupante falta de preparação da AG (quiçá contando que não se realizasse) e um atabalhoamento e falta de coesão que não lhes permitiu resolver e decidir de forma determinada e imediata o problema criado (erradamente em meu entender) pelo Presidente da Mesa da AG (presumindo que o quisessem efetivamente resolver).
Tive oportunidade de trocar algumas palavras com Rui Costa após a minha intervenção, querendo acreditar na tal preocupação genuína com o Clube que apregoa e que ponderará realmente mudar o rumo do Benfica.
No entanto, e como lhe disse de forma franca, tal implica uma "limpeza". Não encontro palavra melhor para definir o que o Benfica precisa. Não apenas de pessoas, com a entrada de sangue novo, mais competente e com melhores práticas; mas igualmente de outros métodos e formas de fazer e de estar. Em suma, há que renovar o Clube e repor valores essenciais ao ADN do Benfica e que estão atualmente perdidos ou estropiados em larga medida.
Para demonstrar que quer ser parte da solução e que não era parte do problema, Rui Costa terá de anunciar de forma inequívoca que quer seguir este caminho. Se não o fizer, Rui Costa dará o preocupante sinal de que, na verdade, pouco quer mudar e que o presente status quo será, mutatis mutantis, para manter, o que considero inaceitável (e até difícil de entender a quem apregoa querer transparência e mudança).
Se Rui Costa não prometer efectuar a limpeza a fundo (da direção ao Seixal, do marketing à SAD, da BTV às equipas técnicas,) não será um príncipe herdeiro, mas arrisca-se a ficar na história como um príncipe ordeiro… ou cordeiro… para com os poderes instalados e lesivos do Clube, passando inevitavelmente aos sócios a ideia de não ter capacidade, coragem e/ou real vontade para os afrontar e eliminar do Benfica, com tudo o que isso acarreta.
Quando Luís Piçarra canta "com um orgulho muito seu", não há benfiquista que não saiba o que isso significa e a importância desse orgulho. Que não recorde pessoas ou momentos míticos, vitórias ou derrotas, mas com um "porte" e altivez humilde que apenas quem é do Benfica pode demonstrar e sentir. E isso é inalienável.
Esse orgulho passa por vencer, vencer sempre, mas obrigatoriamente com ética, com honestidade e com respeito pelos adversários. E quem vir nisso uma fraqueza, não sabe nada de nada acerca do Benfica. A isto chama-se "apenas" mística, um conceito único que envolve várias aceções de nível, classe, educação, vontade, determinação e ética.
Por serem exemplos vivos, Sheu e Toni, são, a meu ver, dois ótimos exemplos da personificação de mística do Benfica e que, importa realçar, ela não precisa de ser vaidosa, barulhenta ou teatral. Ser do Benfica é servir o Clube e ter orgulho nisso. Simplesmente isso.
Em meu modesto entender, quem não representar esses valores não pode estar no Benfica. Na direção, na estrutura, no plantel, ou até na equipa técnica.
A democracia "adormeceu" profundamente no Benfica. Urge acordá-la e voltar a trazê-la para dentro da nossa casa. O jornal do Clube, a BTV e as redes sociais transformaram-se em instrumentos de propaganda em que não se debate o Clube e em que a massa crítica e discordante se desvaneceu. O debate contribui para o desenvolvimento.
Considero-me atento e informado e não tenho ideia de me deparar com processos de recrutamento ou de contratação aberta para o nosso Clube. O que, por outro prisma, levanta a dúvida acerca dos critérios de ingresso na estrutura e que explicará, com forte possibilidade, a referida ausência de "pensamentos não alinhados" e, por conseguinte, de debate interno e saudável no seio do Benfica.
E, desta forma, o Benfica não aproveita o seu recurso mais valioso: os sócios, as suas ideias, as opiniões assentes na diversidade desta enorme família plural, mas unida pelo fito comum de contribuir para o engrandecimento do SLB.
Como referi na AG, o hiato existente entre quem dirige o Clube e os sócios é enorme. A direção não sabe o que os sócios pensam, o que querem, os seus problemas ou como até melhorar a sua vivência de Clube, as idas ao estádio ou as deslocações fora. Não sabem e aparentam também não querer saber. E os sócios, lamentavelmente, não acreditam na direção e não se sentem genuinamente representados nem que a mesma seja um espelho dos valores do Benfica.
Esta forma de governar (uma gestão pelo "excel") tem provado ser catastrófica, pois retira o elemento essencial do futebol do Benfica e do Benfica enquanto Clube: a sustentabilidade financeira não se alcança com compras e vendas desenfreadas de jogadores, mas sim com sucesso desportivo. O sucesso desportivo (mormente do futebol profissional) é o motor do Benfica e pensar diferente não tem cabimento no SLB.
O Benfica tornou-se num entreposto de jogadores e isso tem reflexo natural no desempenho desportivo e na dificuldade da adaptação necessária à cultura do Benfica (ou antes, à que deveria ser), dado que as referências se desvanecem num ápice.
O Benfica tem de ser maior e melhor. Tem de ser mais profissional e transparente e isso implica uma mudança. Benitez não aparenta ter o perfil adequado, personificando apenas uma mudança "barulhenta". Rui Costa, se decidir não mudar profundamente a sua entourage (e salvaguardando-se a condição essencial de que o mesmo nada terá a ver com situações que se encontram no âmbito da justiça), não servirá igualmente os interesses do Clube e a mudança necessária, não podendo ser assim uma opção válida.
O Benfica corre o risco de estar órfão de alternativas. João Noronha Lopes não se candidatou e pese embora tenha dado a cara – aliás com um discurso com elevação e sentido de Benfica - o que se aplaude, não representa uma alternativa. Brás Frade, depois de tudo o que disse e do que saudavelmente contribuiu para o debate no Benfica (e por isso deve ser elogiado), pura e simplesmente não compareceu na AG. Isso, a meu ver, é sinal de que do movimento Benfica Bem Maior não sairá afinal qualquer candidato ou alternativa eleitoral efetiva.
O Benfica precisa assim, de forma evidente, de alternativas. De gente capaz e com vontade em mudar o paradigma instalado de que o futebol é um "lodo" ou um negócio "sujo".
O caminho faz-se caminhando e os sócios do Benfica aburguesaram-se (e faço aqui o mea culpa a nível pessoal). Desde 2003 que não intervinha numa AG e sinto hoje, na minha simples condição de associado, que poderia ter feito mais pelo Benfica. E sei que há muitos sócios que pensam e sentem de forma similar. Gente capaz, competente e séria, mas que se afasta a priori de qualquer envolvimento com o "travão mental" de não se querer envolver no futebol pelo estigma associado ao mesmo. O que menos se aceita ainda quando estamos perante o maior espetáculo do mundo (e do nosso Glorioso), parte relevante das nossas vidas.
É altura de fazer algo para mudar esse paradigma.
Vamos a isso Benfiquistas?
Gustavo Silva, Advogado, sócio n.º 19799