Gustavo Silva

Gustavo Silva Advogado, sócio 19.799 do Benfica

Tempo, mudança e união no Benfica - de 1904 a 2104

Após um silêncio ensurdecedor e uma quase ausência de mudanças visíveis em relação ao passado, Rui Costa veio (finalmente), no espaço de dois dias, abordar três temas essenciais para o futuro do Benfica: tempo, mudança e papel dos sócios, culminando com um apelo a uma união no Clube.

Desde logo, no passado sábado, aquando da entrega dos emblemas de dedicação (momento mágico na vida dos sócios do Benfica com um espontâneo e mais que merecido reconhecimento ao "Senhor" Shéu, que ficará para a história), Rui Costa veio assumir e pedir algo de forma expressa: Tempo! Precisa de tempo. Assumindo o Presidente não ser fácil esse pedido num Clube com este grau de exigência, creio que assumir essa necessidade é um assinalável passo em frente em relação a uma comunicação que enveredou até aqui por um silêncio e quietude quase sufocantes, como que ignorando o óbvio e provocando um desconforto desnecessário aos sócios.

O segundo tema essencial (e inerente ao pedido de tempo) é a mudança. É evidente que Rui Costa mudou ainda pouco e precisa mudar bastante mais. Esta é uma exigência que a grande maioria do universo benfiquista faz e constata: o Benfica precisa de mudar. Desde logo mudar pessoas, mudar pontos de vista e formas de estar e trabalhar. Voltar a ser mais transparente e coerente, para ser a referência desportiva e também ética que todos desejamos.

Neste aspeto, Rui Costa tem um longo caminho a percorrer. Apesar de ser positivo comunicar que quer mudar, é preciso coragem para assumir efetivamente a mudança sem contemplações e com o princípio essencial de que nada está acima do interesse do Benfica. O "estigma" de que está quase tudo na mesma precisa ser afastado, pelo que importa demonstrar e explicar essa mudança, justificando assim o tempo que pediu para o efeito.

Apesar de todos sabermos que do ponto de vista imediato, a estabilidade depende em considerável medida dos resultados do futebol, acredito que a grande maioria dos sócios do Benfica consegue ver para além disso, se estiver informado e acreditar no projecto.

É minha convicção que os sócios do Benfica levam este Clube até onde lhes for possível, desde que acreditem e confiem no rumo a seguir, assim lhes seja dada essa possibilidade. Esta é a minha experiência de Benfica e espero que Rui Costa consiga efetivamente fazer os sócios acreditar e confiar no seu projecto e na mudança que anunciou (mas que ainda não concretizou).

O terceiro elemento essencial é precisamente o papel dos sócios do Benfica. Este aspeto foi abordado pelo Presidente no dia dos 118 anos do SLB, falando da mística e da importância dos sócios no crescimento do Clube. Os sócios estão ativos na vida do Clube e sinto que existe uma assunção de responsabilidade dos mesmos que os mantém presentes e disponíveis para o Clube como há bastante tempo não se via.

Para além destes pontos, Rui Costa aproveitou a oportunidade para abordar uma outra questão relevante e que o mesmo entendeu necessária: "a coesão, união e tranquilidade no SLB".

A este propósito, recordei quase de imediato uma passagem no livro alusivo aos 50 anos do SLB (história do SLB 1904-1954), onde existe um capítulo, referente ao período de 1946/47, que tem por título "Acima de tudo – a união da massa associativa". Esta ideia de união, como se constata, mais de 75 anos volvidos, percorre o tempo e a história do Benfica.

Contudo, e ao contrário de revisionismos de oportunidade, esta união tem implícito um debate sério e frontal e uma participação ativa dos sócios nos destinos do Clube. Sem medo do confronto de ideias ou da crítica construtiva e baseada numa ideia muito simples e cantada em diversas ocasiões, a de que "o Benfica é nosso e há-de ser".

Por tudo isso, importa que união não seja confundida com seguidismo. O Benfica desenvolveu-se num espírito de debate em prol do Clube e daí nasceu uma democracia que orgulha os benfiquistas e que importa revitalizar e reforçar, sentindo-se actualmente nos sócios essa vontade de participar e acompanhar o Clube mais de perto.

Essa união no Benfica, mais do que pedida, deve ser conquistada, de forma natural, concretamente pelos bons exemplos e prossecução dos interesses do Benfica.

Por isso, não pode alguém, seja quem for, pretender contar com a força da Alma do Benfica (a massa associativa, como referiu Rui Costa utilizando as palavras de Borges Coutinho), para depois a desaproveitar ou desconsiderar.

Neste sentido, a quem considera que discordar ou propor ideias diferentes é desestabilizar ou "ser do contra", recomendo que repita as referidas palavras de Borges Coutinho ou que leia a mencionada passagem do livro, para assim entenderem a importância do debate ao longo da história do Benfica. E de como, no caso concreto após as eleições de 1946, de um aceso debate se reforçou a união com a intervenção decisiva do então Presidente da AG (e mais tarde Presidente da direção) Tamagnini Barbosa.

E se infelizmente perante o que se passa na Ucrânia, a história parece que pouco nos ensinou, que pelo menos a história do Benfica sirva para não se cometerem ou repetirem erros de palmatória no Clube.

Porque 75 anos depois, o que importará acima de tudo ao Benfica é que quem nos venha a ler aquando dos 200 anos do Benfica (em 2104) mantenha - pelo menos - o mesmo orgulho no caminho trilhado pelo Benfica como aquele que temos aos dias de hoje. O tal "orgulho muito seu" que apenas entende quem sente. Esse será certamente o nosso maior legado.

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