Daniel Sá

Daniel Sá Diretor Executivo do IPAM

A Champions nunca foi tão emocionante: a noite em que tudo mudou ao minuto

A última jornada da nova Champions League, disputada na passada quarta-feira, não foi apenas a noite do milagre de Trubin, sendo talvez a melhor ilustração de porque o desporto precisa de produtos desenhados para a emoção e não para a rotina.

 O novo formato da competição, uma liga de 36 equipas, todas a jogar oito jogos contra adversários diferentes, transformou a derradeira noite num espetáculo em que as classificações mudaram ao minuto, com clubes a saltarem entre o apuramento e a eliminação em função de cada golo marcado a milhares de quilómetros de distância.

 Às 20h00, quando os 18 jogos começaram em simultâneo, Benfica, Galatasaray, Club Brugge, Atalanta e Bodø/Glimt estavam virtualmente vivos; às 21h30, alguns estavam fora; às 21h52, com o apito final repartido pelos vários fusos, tudo tinha mudado outra vez. É precisamente esta imprevisibilidade, este “caos organizado”, que defendo há anos como o motor emocional que sustenta o consumo desportivo. E a UEFA, finalmente, percebeu.

 Os dados da jornada ajudam a explicar este fenómeno. No espaço de 90 minutos, o Sporting, que venceu em Bilbau por 3-2, garantiu o 7.º lugar na tabela geral, fechando com 16 pontos e integrando o grupo privilegiado das oito equipas apuradas diretamente para os oitavos de final, entre Arsenal, Bayern, Liverpool, Tottenham, Barcelona, Chelsea e Manchester City, todos com 16 ou mais pontos somados numa fase tão curta e tão intensa.

 Ao mesmo tempo, o Benfica, que chegou à noite numa posição frágil, entrou no jogo a precisar de vencer e acabou por bater o Real Madrid por 4-2, num Estádio da Luz cheio com 64.305 espectadores, uma das maiores assistências da jornada. O resultado colocou momentaneamente o Benfica nos lugares de play-off, mas as vitórias de Club Brugge, Galatasaray e Union SG — todas elas conquistadas ao mesmo tempo — empurraram os encarnados para o 24.º lugar, o último de acesso ao play-off, apenas dois pontos acima da linha de eliminação direta.

 O mais fascinante é que quase todas as lógicas do antigo formato desapareceram. Em vez de grupos previsíveis, onde a matemática fechada das quatro equipas criava noites mortas em novembro, este formato trouxe semanas inteiras de volatilidade. A tabela, que se alterou dezenas de vezes ao longo da noite, tinha o Arsenal intocável no topo, mas depois abria um corredor altamente competitivo do 3.º ao 24.º lugar, todos separados por margens mínimas.

 Num período de 15 minutos, Real Madrid passou de apurado para play-off; PSG saiu da zona de conforto e voltou nos últimos lances; Union SG, que entrou na noite no limiar da eliminação, subiu vários lugares com a vitória por 1-0 sobre a Atalanta; até equipas teoricamente condenadas, como o Bodø/Glimt, voltaram à vida ao vencer o Atlético de Madrid por 2-1 sobre o apito final.

 A isto junta-se um fator decisivo: o consumo. A UEFA ainda não divulgou os números consolidados de audiência internacional desta última jornada, mas sabemos que cada estádio forneceu pistas claras sobre o apetite do público. O Camp Nou recebeu 44.609 pessoas para ver o Barcelona vencer o Copenhaga por 4-1; o Etihad contou com 35.259 adeptos no 2-0 ao Galatasaray; e Anfield encheu com 60.043 espectadores para assistir ao 6-0 do Liverpool sobre o Qarabag.

 Estes números confirmam uma tendência que tenho defendido repetidamente: quando o produto é bom, o público aparece. Quando há emoção real, a experiência torna-se relevante, e quando a relevância cresce, os patrocinadores seguem.

 É impossível não comparar esta noite de Champions com aquilo que identifico como o futuro do entretenimento desportivo: produtos que maximizam incerteza, multiplicam histórias paralelas, criam tensão constante e entregam valor narrativo mesmo a quem não está emocionalmente investido numa só equipa. A fase de liga da Champions reproduz exatamente este modelo. A UEFA eliminou o que era previsível e ampliou o que é emocionante. E, no desporto moderno, a emoção é a única moeda que nunca desvaloriza.

 Esta última jornada foi a prova definitiva de que o futuro das competições não está na estabilidade, mas na oscilação. Não está em “grupos equilibrados”, mas em tabelas vivas. Não está em proteger grandes clubes, mas em criar um produto onde todos contam. O novo formato da Champions não é perfeito, mas já é, de longe, o melhor teste que o futebol europeu fez em décadas. E se o desporto quer continuar a competir num mundo saturado de estímulos, este tem de ser o caminho: emoção permanente, relevância constante e formatos que respiram como a própria indústria — em tempo real.

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