A inteligência artificial deixou de ser uma promessa para se tornar a nova infraestrutura do entretenimento e o desporto está no centro desta transformação. Em 2026, as grandes plataformas de streaming caminham para modelos de “orquestração” e hiperpersonalização com IA, que reduzem a fricção na descoberta e aumentam a retenção de adeptos.
No plano internacional, 2026 tende a ser o ano em que o vídeo generativo feito por IA fica “bom o suficiente” para grandes produções, encurtando os ciclos de criação de conteúdos, desenhando versões alternativas e localizações dinâmicas para diferentes públicos, e libertando equipas para funções de curadoria, revisão artística e direção criativa.
Para clubes e ligas, isto significa reformatar highlights, bastidores e ativações em minutos, testando narrativas e novos formatos. Para os broadcasters e rights holders, a implicação é ainda maior: personalização de câmaras, sobreposição de dados e clipes sob procura passam a ser um requisito competitivo, não um “nice to have”. É a economia da atenção a entrar em modo científico.
Do lado das marcas, a consolidação do streaming e a pressão por resultados mensuráveis aceleram a migração do patrocínio de visibilidade para o patrocínio de performance. E Portugal? O risco é ficarmos a discutir problemas velhos com ferramentas antigas. Os números do sistema desportivo mostram que a procura existe, cerca de 750 mil federados, um máximo histórico, com crescimento expressivo em modalidades de pavilhão como voleibol, andebol e basquetebol— mas a resposta em produto e tecnologia ainda é tímida face ao potencial de fidelização e monetização dos adeptos, sobretudo no feminino e nos escalões de formação.
Ao mesmo tempo, o Governo anunciou um plano 2024-2028 com investimento dedicado a desenvolvimento, ciência e observatórios do desporto; é a janela certa para colocar a IA no centro do marketing e da operação, da bilhética dinâmica ao pricing em tempo real, da produção de conteúdos à personalização de experiências em apps, com métricas partilhadas entre clubes, ligas e federações.
O que fazer já? Primeiro, dar atenção à gestão de dados. Os clubes e as federações devem tratar a audiência como um ativo estratégico e não como uma métrica dispersa. As ferramentas de audiência, que dão acesso aos dados oficiais de consumo por jogo, mercado e broadcaster, são um ponto de partida: integrar essa informação com CRM e canais próprios para construir painéis que liguem exposição a vendas.
O desafio não é adotar tecnologia pela tecnologia; é redesenhar processos, competências e métricas para que cada euro investido gere mais emoção, mais dados e mais receita.
A mensagem é simples e exige urgência: a IA já está a reorganizar o entretenimento e a publicidade; no desporto, ela decide quem fica com o tempo do adepto e com o dinheiro do patrocinador. O futuro não é trocar pessoas por algoritmos, é elevar a ambição do produto e medir aquilo que conta. Quem pensar melhor com a IA, e não apenas produzir mais depressa, vai liderar.
Quem hesitar, verá a audiência procurar noutro lado a personalização, a relevância e a experiência que hoje já são padrão fora do desporto. Em 2026, a vantagem competitiva não é ter acesso à IA; é saber o que fazer com ela. E esse é um jogo que Portugal ainda vai a tempo de ganhar, se decidir jogá-lo agora.