2026 vai ser um teste brutal à sobrevivência de muitas competições, clubes e modalidades, não por falta de qualidade desportiva, mas por falta de espaço mental. O calendário está a ficar impraticável e isto não é um desabafo de adepto cansado: é uma realidade da indústria.
Em janeiro tivemos em poucas semanas a Taça da Liga, os Europeus de andebol e futsal, o Australian Open e jornadas decisivas das competições europeias, tudo a competir pelo mesmo: tempo de ecrã, atenção do consumidor e orçamento das marcas.
A UEFA, aliás, realizou a última jornada da fase de liga da Champions para um único 'super-evento' numa noite só, com 18 jogos em simultâneo, porque percebeu que o produto precisa de intensidade concentrada para ser relevante.
E isso é a confirmação de uma tese simples: já não basta “ter calendário”, é preciso “ter momento”. O problema é que o resto do ecossistema não tem a capacidade de criar momentos tão fortes e começa a ser esmagado por uma sucessão de grandes acontecimentos. Este ano ainda por cima é ano de Mundial, com a competição a decorrer entre 11 de junho e 19 de julho, e a própria FIFA a aumentar o tamanho do evento, o que significa mais jogos, mais conteúdos, mais patrocinadores e mais espaço mediático ocupado durante semanas.
Acrescenta-se a isto os Jogos Olímpicos de Inverno, já realizados, em Milão-Cortina, que atraíram investimento e agenda global para outro território de consumo. E depois há o que muita gente esquece: a Champions, a Europa League e as ligas nacionais não páram. Comprimem-se cada vez mais. O resultado é inevitável: alguns produtos vão perder relevância não por serem maus, mas porque não conseguem furar o ruído.
O que muda com tamanha saturação? Quando o público tem demasiadas opções, começa a consumir por critérios diferentes: não escolhe 'o melhor jogo', escolhe o mais fácil, o mais curto, o mais comentado, o mais emocional ou o que aparece primeiro no feed. É aqui que o meu ponto e vista se torna incontornável: os produtos desportivos têm de ser modificados para continuarem a competir pela atenção.
A era em que bastava existir uma competição e ter uma transmissão garantida acabou. Em 2026, a sobrevivência vai pertencer aos produtos que dominem três variáveis: narrativa, formato e distribuição. Narrativa, porque o público segue histórias e não calendários. Formato, porque a imprevisibilidade e a urgência vencem a rotina. E distribuição, porque o jogo já não é apenas no estádio ou na televisão: é no telemóvel, nos clipes, nos bastidores, na personalização e na conversa social.
Portugal tem um problema adicional: o nosso mercado já é pequeno e muito concentrado. No futebol, os três grandes capturam a maior fatia de atenção e receita. Fora do futebol, as modalidades competem por migalhas mediáticas, muitas vezes com modelos de patrocínio ainda baseados em presença e não em performance. Num calendário global saturado, isto é um risco existencial.
Se não houver estratégia, vamos ver um efeito dominó: marcas a concentrarem investimento em menos propriedades (as que entregam escala e dados), media a reduzirem espaço para conteúdos de nicho, e adeptos a consumirem modalidades apenas em picos de resultado em vez de acompanharem jornadas e épocas. A consequência é clara: a saturação vai matar silenciosamente a regularidade, e sem regularidade não há receita recorrente, não há base de adeptos sustentável, não há produto.
A grande pergunta que se coloca para 2026 não é “quantos eventos temos”, mas “quantos eventos têm realmente relevância”. E a resposta é desconfortável: muitos vão desaparecer do radar. A solução não é fazer menos desporto, é fazer melhor desporto enquanto produto. Mais colaboração entre entidades, melhor calendarização, criação de janelas protegidas, formatos mais intensos, experiências mais ricas e uma narrativa digital contínua. Caso contrário, vamos ter um país que produz atletas e resultados, mas que continua a perder o jogo onde hoje se decide tudo: o jogo da atenção.