Daniel Sá

Daniel Sá Diretor Executivo do IPAM

O triângulo que está a mudar o desporto mundial

 Há 20 anos, o mapa do poder no desporto era simples: a Europa mandava, os Estados Unidos monetizavam e o resto do mundo assistia. No momento em que entramos em 2026 sabemos já que essa lógica morreu. O novo eixo que realmente está a redesenhar a indústria é o triângulo África–Arábia–América Latina. É aqui que estão as audiências que crescem mais depressa, os investidores mais agressivos e a próxima geração de talentos globais.

 Mas a pergunta é outra: onde está Portugal neste novo tabuleiro? A resposta dói, já que estamos a jogar xadrez com regras de damas.

 O centro do desporto mundial mudou e a maior parte da Europa continua a agir como se nada tivesse acontecido. A ideia de que Londres, Madrid ou Munique determinam sozinhas o futuro do futebol e das restantes modalidades já não tem aderência à realidade. Em 2026, o poder deslocou-se para um triângulo composto por África, Arábia Saudita e América Latina — três regiões que crescem mais rápido do que qualquer campeonato europeu, que acumulam audiências globais e que estão a atrair investimento num ritmo que a Europa já não consegue acompanhar.

 A Taça das Nações Africanas deste mês é o primeiro aviso do ano. A competição, disputada em Marrocos até 18 de janeiro, voltou a ocupar um lugar central no calendário global, tornando-se um dos eventos com maior tração mediática de janeiro, numa altura em que arrancam também o Europeu de Andebol e as fases de Liga das competições europeias.

 A CAN está a transformar-se num produto comercial que rivaliza com torneios europeus em volume de audiências e exportação de talento. O que antes era visto pela Europa como uma “competição exótica” é agora um motor de atenção global, reforçado por uma diáspora que amplifica cada jogo em mercados como França, Reino Unido e Médio Oriente.

 Quem olha para África apenas como um fornecedor de jogadores ignora a realidade: o continente tornou-se um mercado de consumo desportivo por explorar, com crescimento populacional jovem que a Europa já não tem e com um potencial de valorização que ultrapassa muitos mercados tradicionais.

 No outro vértice do triângulo está a Arábia Saudita, que deixou de ser apenas um destino alternativo para se assumir como o principal acelerador financeiro do desporto mundial. A novela de Mohamed Salah no Liverpool, num janeiro marcado por tensão com a direção do clube e pela pressão saudita para assegurar o jogador, simboliza esta transformação. Salah já foi alvo de tentativas agressivas de Al-Ittihad e Al-Hilal, e a insistência saudita não é sobre futebol: é sobre soft power, protagonismo global e controlo da narrativa.

 O país está a investir simultaneamente em futebol, golfe, ténis, boxe, Fórmula 1 e e-sports, numa estratégia coordenada que pretende posicionar Riade como o centro mundial do desporto antes do Mundial de 2034. E tem liquidez para isso. Na janela de janeiro do ano passado, os gastos globais em transferências chegaram aos 2,35 mil milhões de dólares, um recorde histórico segundo a FIFA. Um dos maiores negócios dessa janela foi precisamente para a Arábia Saudita, com Jhon Durán a custar cerca de 77 milhões de euros ao Al-Nassr — a prova de que o fluxo financeiro já não passa unicamente pela Europa.

 O terceiro vértice do triângulo é a América Latina, provavelmente a região mais subestimada na análise europeia, mas onde está a nascer o maior laboratório global de cultura desportiva. As ligas do Brasil, do México, da Argentina e da Colômbia continuam a exportar talento a um ritmo que a Europa não acompanha e criam uma intensidade emocional que nenhum campeonato europeu fora do top-3 consegue replicar.

 No Brasil, por exemplo, o mercado de transferências para 2026 mobiliza milhões e atrai investimentos crescentes de clubes europeus e árabes. E nos Estados Unidos — o maior mercado mediático do mundo — a Liga MX mexicana já ultrapassa a MLS em várias métricas de audiência televisiva e digital, fenómeno que se intensificará no ciclo da Copa do Mundo de 2026. O continente oferece aquilo que a Europa tenta simular com campanhas de marketing: autenticidade, espontaneidade e cultura.

 O ponto crítico é que este triângulo África–Arábia–América Latina tem, em simultâneo, aquilo que falta à Europa: talento jovem em abundância, mercados digitais em expansão e liquidez financeira agressiva. África projeta o crescimento demográfico mais alto do planeta e está a transformar os seus torneios em bens mediáticos globais. A Arábia Saudita assume-se como investidor soberano de última instância num desporto que se tornou cada vez mais caro para o velho continente. A América Latina alimenta a cadeia global de talento e influencia culturalmente gerações através da sua forma de viver o jogo. A Europa, pelo contrário, debate-se com estagnação demográfica, saturação de audiências, limitações financeiras e envelhecimento dos seus públicos.

 E Portugal? Portugal está no sítio certo e na hora certa, mas ainda não percebeu a oportunidade histórica que tem à frente. O país tem ligação natural com África lusófona, portas abertas para o Brasil, capacidade de atrair investimento do Médio Oriente e uma liga que continua a exportar talento de forma consistente.

 Mas falta visão estratégica, escala e capacidade de integração nesta dinâmica global. Continuamos presos à ideia de que o futuro do futebol português depende do que acontece em Espanha, Inglaterra ou Alemanha, quando os mercados que mais crescem estão noutras geografias. O triângulo África–Arábia–América Latina vai dominar o desporto mundial nos próximos dez anos. Portugal tem a vantagem competitiva natural para integrar esse eixo. Mas precisa de decidir se quer entrar no jogo agora ou se continuará a assistir de fora enquanto outros países conquistam o espaço que podia ter sido nosso.

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