Ângulo inverso

Nuno Santos
Nuno Santos

A diferença também está no treinador

Há uns dias caiu o Carmo, a Trindade e caiu que nem sopa no mel nos programas televisivos dos canais de cabo aquela declaração de Jorge Jesus – "a diferença está no treinador". Pode não ter sido um dos seus momentos mais felizes, mas – como aqui escrevi há uma semana – é ele a locomotiva do futebol em Portugal e, mesmo quando comete erros, não se discutem as suas qualidades intrínsecas antes os seus momentos pontualmente menos bem conseguidos.

Não vai mudar e, mais cedo ou mais tarde, Jorge Jesus voltará a ser campeão. Efetivamente em todos clubes por onde passou, pelo menos nos últimos dez ou 12 anos, Jesus fez sempre a diferença. Foi esse facto, expresso designadamente em Belém e em Braga, que o fariam chegar à Luz depois de inúmeras tentativas frustradas para encontrar o homem certo. O Benfica tem hoje, porque Luís Filipe Vieira quis ter, um treinador com um perfil completamente diferente. E para este tempo tratou-se de uma decisão certa, mesmo que conduzida de maneira questionável.

Tudo o que pareciam fraquezas em Rui Vitória ele transformou em forças. Ganhou, continua a ganhar – apesar do acidente de Nápoles – e, muito mais importante, tem mostrado um sanguefrio e uma solidez que apagaram os primeiros sinais de uma liderança titubeante. O Benfica ambiciona o tetra, que nunca conseguiu, embora a realidade do clube esteja hoje acima de um título que se ganha ou que se perde. O Benfica (re)emergiu como a potência mais forte do futebol em Portugal, poderá ter de dividir esse papel, mas não voltará à penumbra em que viveu.

No FC Porto a questão é mais intrigante. Eu faço parte do grupo que reconhece qualidades técnicas e de liderança a Nuno Espírito Santo. Do grupo que rejeita a tese de se tratar de um produto de Jorge Mendes. De ser um bem-falante do futebol moderno, com termos caros e por vezes impercetíveis. Nuno não tem muita obra feita, tem o perfil para o lugar. Conta alguma coisa. Ainda é muito cedo, o equipa está na luta pelo título, mas a inconsistência das exibições nos jogos mais importantes é muito percetível. Será um Porto em construção, só que demasiado em projeto num ano decisivo para o clube. O próprio nível dos reforços, apenas medianos com uma ou outra exceção, revela as dificuldades. O grito "Somos Porto" que o treinador encarna, como herdeiro de uma certa mística, não chega.

Em síntese, os grandes têm bons treinadores. No Sporting o treinador faz mesmo a diferença, independentemente do bom trabalho da estrutura e do presidente em particular; no Benfica, Luís Filipe Vieira está no centro da operação, mas conta com um treinador com qualidades e completamente alinhado com os objetivos; no Porto parece ser mais difícil dizer quem está onde. E isso é que era impensável há dois ou três anos.

Vergonha na pátria do futebol

O selecionador inglês resignou ao cargo, um eufemismo para dizer que foi demitido por indecente e má figura depois de ter sido apanhado num esquema que indiciava corrupção. Sam Allardyce, que tinha chegado ao lugar há apenas 67 dias, não era exatamente um treinador de primeira linha, mas isso não vem ao caso. Ao ter mostrado disponibilidade para contornar regras a troco de comissões denunciando ao mesmo tempo más práticas de quem lhe pagava o ordenado revelou, por um lado, a fragilidade da natureza humana, mas – muito pior – que a corrupção não tem marca, nem cor, nem zona geográfica. Ou as pessoas são estruturalmente sérias ou não são. Allardyce não foi, não é. Apanhado pelo jornalismo de investigação, sai pela porta pequena depois depois de ter chegado ao topo. É também um bom caso para, em geral, nos levar a uma reflexão.

Slimani. O ponta-de-lança argelino que o Sporting comprou a preço de raspadinha e vendeu no patamar do Euromilhões está na calha para ser uma das figuras de topo da Premier League e, ao mesmo tempo, para poder brilhar na Europa. Claro que Leicester não repetirá o brilho e a glória da época passada, mas um jogador com as características de Slimani, com o apoio de um avançado como Vardy e numa equipa de futebol largo, tem tudo para ser uma estrela. Talvez deixe de ser um jogador tão completo como era nas mãos de Jorge Jesus, em compensação tem a conta bancária mais recheada e o mundo a olhar para ele.

Rooney. Confirmou-se o que muitos previam: Wayne Rooney, o capitão do Manchester United, um histórico do clube apesar de ter só 30 anos, é um problema para José Mourinho. Rooney perdeu fulgor e não é fácil encontrar uma posição para ele no xadrez da equipa. Não é a primeira vez que o treinador enfrenta casos desta natureza com figuras carismáticas e, com exceção de Casillas – que causou um enorme dano –, tem sabido resolver a bem as questões. As primeiras declarações foram serenas e inteligentes. Ter Rooney do seu lado é parte do êxito de Mourinho no United.

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