Sobre a Rússia com amor

José Milhazes
José Milhazes Historiador/Jornalista

É bom ou mau fazer sexo com estrangeiros/as?

Muitos considerarão que não tem sentido colocar essa questão no Mundo atual e muito menos durante um Campeonato do Mundo de futebol, mas o certo é que a questão foi levantada e, aparentemente, de onde menos se esperava.

Tamara Pletnyova, deputada da Duma Estatal (Câmara Baixa) do Parlamento Russo, que lidera uma comissão parlamentar sobre família, mulheres e cuidados infantis, lançou um apelo às mulheres russas para não fazerem sexo com estrangeiros durante o Campeonato do Mundo da Rússia, alegando que isso poderia aumentar as fileiras das "crianças mestiças". "Estas crianças mestiças sofrem e sofreram desde os tempos soviéticos. Uma coisa é serem da mesma raça, outra coisa é serem de uma diferente. Não sou nacionalista, ainda assim sei que as crianças sofrem. São abandonadas, e é isso, ficam aqui com as mães", justificou esta representante do povo, e argumenta com a situação criada durante e depois dos Jogos Olímpicos de Moscovo em 1980.

Mas uma deputada comunista disse mesmo isso?, perguntarão alguns céticos ou camaradas portugueses. Disse e, pelos vistos, parece não compreender que a União Soviética terminou em 1991. Primeiro, a senhora considera que fazer sexo leva obrigatoriamente ao nascimento de criancinhas, talvez porque, no tempo em que eu e ela éramos jovens, na União Soviética simplesmente não havia meios anticoncetivos além do aborto. Segundo, reconhece que tanto na União Soviética como na Federação Russa o racismo é um grave problema social, o que sempre foi desmentido pelos comunistas soviéticos, que juravam ser "internacionalistas", e pelos atuais ideólogos russos. As palavras de Tamara Pletnyova - "Não sou nacionalista" - dizem tudo. Terceiro, esta deputada vermelha põe em causa a igualdade de sexos, pois só as mulheres podem 'pecar', como se os homens russos fossem impermeáveis a tais tentações. Não, talvez porque as mães de outra cor não deixassem os seus filhos na URSS.

Felizmente, as pessoas já não vivem na União Soviética, país que não permitia a livre circulação dos seus cidadãos mesmo no interior do país. Por muitos defeitos que se possam apontar ao atual regime russo, a verdade é que se uma russa ou um russo se apaixonarem por um estrangeiro ou uma estrangeira, ainda podem decidir o seu destino, não correndo o risco de viverem separados até ao fim dos seus dias ou de terem de entregar os seus filhos mestiços a instituições sociais para as mães não serem discriminadas.

Talvez a deputada tivesse feito melhor se apelasse ao "sexo seguro".

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