Irresponsáveis por mim

Bruno de Carvalho propôs à Federação Portuguesa de Futebol a "introdução de um mecanismo de responsabilização dos clubes pelas declarações proferidas por comentadores que lhe sejam manifestamente afetos". A proposta revela um equívoco: que os comentadores representam os clubes. Este equívoco é responsabilidade da comunicação social, que aceita comentadores indicados por direções. É como se o comentador estivesse para o clube como o deputado está para o partido. E é isto que cria o perverso hábito dos clubes terem uma comunicação oficial – a dos presidentes, treinadores e diretores de comunicação – e outra oficiosa – a dos comentadores. É a oficiosa que, com ou sem cartilhas, geralmente atira gasolina para o fogueira. Em vez de combater a perversidade, Bruno de Carvalho quer oficializá-la.

Eu sou um comentador "manifestamente afeto" a um clube e nunca permitirei que alguém se responsabilize por o que escrevo. Como só nos responsabilizamos pelo que controlamos, teria de dar ao clube a capacidade de determinar o que posso e não posso escrever. Não seria um comentador, seria um porta-voz. A incompreensão que Bruno de Carvalho demonstra com esta proposta é a mesma que leva Vieira e enviar cartilhas a comentadores. Como se nota em muitas ocasiões, os dirigentes desportivos não fazem a mais pálida ideia do que seja a liberdade de imprensa. Sou um adulto livre que vive numa democracia. Não quero tutores, não preciso de encarregados. E acredito que os outros são como eu. Espero, por isso, que a proposta de Bruno de Carvalho nem sequer mereça atenção de uma Federação que não tem, não pode ter, qualquer poder sobre os comentadores e a imprensa. Apesar de poderem estranhar, o futebol não vive num país à parte. Também é coberto pela Constituição da República.

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