Na semana em que se confirma mais um clube milionário a deixar convencer-se pelos méritos de André Villas-Boas (em confirmação desde o tempo do FCPorto), surge por aí um exército – tanto cá como lá fora – a esgrimir (ou a ameaçar esgrimir nas entrelinhas) a decadência de José Mourinho. O mesmo que abriu tantas e tantas portas por onde entrou entre nós e no estrangeiro a qualidade do treinador português, estimulada pela extraordinária capacidade de treino, pela singular motivação psicológica dos atletas e pela leitura moderna do jogo que Mourinho introduziu no seu tempo de arranque e maturidade.
Talvez muitos tenham contas antigas para acertar com o premiado técnico português e esperaram pela derrocada – o que é muito feio! Talvez outros nunca tenham conseguido assimilar o sucesso desportivo e financeiro de Mourinho com a alegada "arrogância" que sempre usou como instrumento de defesa e superação das suas equipas – o que torna tudo anacronicamente submetido à crueza dos resultados! Mas sente-se uma pressa em enterrar, transmitida (ou pronta a ser transmitida) pelos mensageiros avençados e pelos mercenários da palavra. Mourinho deixou pelo caminho muitas inimizades e ódios de estimação. Por ser como é e por ganhar sendo como é. Por não gostar de perder e detestar trabalhar com quem se acomoda a perder. E por ser português, num mundo global a que o português não tinha acesso. Sendo como é, Mourinho nunca se escondeu e agora verá o carácter de muitos daqueles que, no tempo das luzes, se esconderam debaixo das pedras…
O certo é que o caminho de muitos na última década foi induzido pelo efeito Mourinho – como antes, mais timidamente e sem continuidade, tinha sido feito por Artur Jorge. E o seu lastro é indesmentível: (1) metodologia científica do treino; (2) trabalho transversal e em equipa multidisciplinar nas diferentes vertentes da preparação do atleta; (3) conhecimento da sua própria organização (clube e equipa) e do "ambiente externo" numa lógica de gestão – reconhecimento de "forças", "fraquezas", "oportunidades" e "ameaças" e identificação dos "factores críticos de sucesso" para a competitividade: Mourinho foi, é e será um gestor; (4) preparação mental e antecipação de cenários e crises; (5) comunicação envolvente do jogo e das competições; (6) evolução cultural do meio. Tudo isso junto é muito mais importante que uma má época ali ou acolá. Tudo isso será um dia a história de Mourinho e a ela se deve a história de muitos. Dos ressabiados não rezará a história.