Nos anos recentes, o domínio da Liga dos Campeões tem estado concentrado num grupo restrito de clubes. Nas últimas cinco edições, essa concentração traduziu-se em que apenas doze clubes, de somente cinco países, fossem semifinalistas. Para um grande projeto de um Benfica de topo europeu, o tempo vai passando, e o mandato de 2025-2029 não é um ponto longínquo, num futuro imprevisível. Por isso, a atual Direção, e os futuros candidatos a dirigentes do clube deveriam, cada um no seu tempo próprio, explicar aos sócios como pensam preparar o Benfica para as oportunidades e para os desafios que se apresentam na Europa do futebol.
A desvantagem competitiva do Benfica na captação de receitas comerciais
Para competir numa semifinal da Liga dos Campeões, é necessário talento e recursos financeiros. Nos clubes dominantes, a chave do seu sucesso financeiro, situa-se no êxito da sua atividade comercial e de marketing. Segundo dados do relatório " Deloitte Annual Review of Football Finance", , referentes a 2022/2023, aquela é a principal receita, representando 46% das receitas operacionais totais. Em importância, é seguida pela receita dos direitos de transmissão, que pesa 38% do total, e pelas receitas de bilheteira, 16% do total. Clubes com robustas estratégias comerciais e de marketing, como o Real Madrid (48%), Bayern de Munique (56%), PSG ( 50%), Barcelona (52%), United (48%) e Juventus ( 50%), situam-se bem acima dessa média. O Benfica, apresenta 19%( dados 2022/2023), uma desvantagem concorrencial de vinte e sete pontos percentuais, versus a média, uma situação que tem as repercussões descritas abaixo.
O mercantilismo financeiro do Benfica: ineficiências de gestão - SOS financeiros - perda de receitas futuras
O défice de captação de receitas comerciais, conjugado com os excessos nos custos operacionais, nomeadamente na rubrica de Fornecimentos e Serviços Externos (representam 78% do total dos Custos Pessoal), impeliram o Benfica para uma política mercantilista de curto prazo, para suprir as referidas ineficiências. Essa política, concretiza-se pela venda rápida dos talentos jovens que despontam na formação do clube. Há uma época tivemos a venda de Gonçalo Ramos, na época atual a de João Neves e, provavelmente, na próxima época, a venda de Tomás Araújo. Algumas dessas vendas, com o seu impacto mediático momentâneo, ofuscam a perda potencial de rendimentos futuros. Fixemo-nos no caso recente de João Neves. Neves, para além do seu potencial futebolístico, tem um formidável "goodwill", um excedente de valor que vai para além da materialidade do seu valor desportivo.
Para se entender o argumento, tomem-se dois exemplos: David Beckham, um jogador cujo impacto económico superou muito a sua contribuição estritamente desportiva. Na sua carreira, Beckham terá "vendido" cerca de 500 milhões de euros de material desportivo. No seu primeiro ano no Real Madrid, CR7, "vendeu" cerca de 100 milhões de euros de camisolas. Obviamente, João Neves não é ainda, um ícone do futebol mundial, como os dois exemplos referidos. Mas Neves alia ao seu grande talento desportivo, uma imagem de juventude, um carisma pessoal e um comportamento exemplar, que representam valores com os quais o publico adepto, e muitas marcas líderes, se identificam. O potencial desportivo de João Neves é elevado, mas o seu potencial comercial é, provavelmente, ainda superior. As marcas que beneficiam destas vendas colossais, retornam os benefícios obtidos, através de patrocínios substanciais. O Real Madrid recebe da Adidas 120M de euros anuais e o valor total anual dos patrocínios do clube, ronda os 300M de euros. O Benfica captou 24 milhões de euros, doze vezes e meia menos. Uma potencial megaestrela futura, como João Neves, poderia induzir a multiplicação desse valor no futuro, ao longo de vários anos. As ineficiências de gestão acima apontadas geram SOS financeiros de curto prazo, que tendem a ser solucionados pela via mercantilista. Mas o efeito colateral, é a extinção de receitas futuras potencialmente superiores, além de consequências desportivas desfavoráveis.
O mercantilismo financeiro do Benfica: erosão competitiva e instabilidade
O City ganhou as ultimas quatro ligas inglesas, acedeu por três vezes às meias-finais da Liga dos Campeões, e foi campeão uma vez. Com quem contou no seu onze principal? Contou com o contributo de quatro ex-jogadores do Benfica (Ederson, Rúben Dias, Bernardo e Cancelo, saiu em Janeiro de 2023). Alguém pode razoavelmente considerar, que o valor realizado pelo Benfica com as vendas destes quatro jogadores, se pode comparar com o valor desportivo e financeiro por eles gerado, para o City? E, também, consequentemente, se pode comparar com o valor desportivo e financeiro que não puderam criar para o Benfica? Que diremos no futuro das conquistas do PSG de Ramos e Neves? Iremos concluir que o Benfica não formou os melhores talentos para vencer, formou-os para vender, e algum outro clube vencer.
Não haverá decisão estratégica mais importante para a futura Direção do Benfica, do que esta: deixar de " formar para vender", passar a " formar para vencer". A instabilidade causada nos plantéis do Benfica, reforça a inferioridade face aos rivais europeus. No Benfica, entre a época de 2021/2022 e a atual, apenas Otamendi é um elemento comum aos dois onzes principais. No Real Madrid, seis jogadores (55%) são titulares em comum, tal como no City. O Bayern, manteve cinco titulares comuns. Um titular estável no Benfica, meia-equipa estável nos rivais do topo da Europa. A estabilidade praticada por estes compensa: nos últimos cinco anos, as três equipas ganharam pelo menos uma Liga dos Campeões.
Que transformações vai empreender o Benfica?
O mandato 2025-2029, apresentará oportunidades e desafios para o Benfica. E os quadros de referência acima expostos, carecem de respostas por parte dos dirigentes atuais e, no seu turno, por parte dos candidatos a dirigentes: - Como projectam aproximar o peso percentual das receitas comerciais da média da elite europeia? Que iniciativas pioneiras irão trazer nesta área? Que contributos oferecerá a inovação no universo digital (exemplo em curso, a parceria Real Madrid-Apple para criar o Santiago Bernabéu infinito)? - Como pensam estruturar um modelo desportivo e económico-financeiro alternativo e sustentável? Como propõem efetuar a transição do modelo mercantilista atual para o novo modelo?
-Como tencionam proceder, para reter por mais anos os grandes talentos da formação do clube? Como irão garantir planteis competitivos e estáveis? No Benfica, é frequente os dirigentes referirem-se à Liga dos Campeões como um sonho, e como não sendo uma utopia. Já tivemos um quinhão suficiente de "sonhos" anunciados e devastados por ineficientes políticas de curto prazo. Para o horizonte 2025-2029, necessitamos uma visão explícita do caminho do Benfica para o topo europeu.
