As audiências não enganam. Como regra não há espaços mais procurados nas televisões de informação por cabo que os programas de discussão sobre futebol. E quanto maior for a discussão, isto é quanto mais gritaria houver, mais são as possibilidades de captar espectadores. O povo quer circo, a TV dá-lhe circo, se bem que isto não se possa levar absolutamente à letra.
O futebol é um incontornável fenómeno de massas, move milhões – como ainda agora se viu na negociação dos direitos – e interessa a um público muito vasto e até transversal. Deve ser um conteúdo estrutural na oferta dos canais. Sem discussão.
A questão é que com a pulverização de jogos, lançamento dos mesmos e respetivos rescaldos, os canais entraram em roda livre dando hoje um espaço que não é muito diferente a um jogo entre grandes do que aquele que dão, por exemplo, a um jogo do Benfica, Porto ou Sporting algures no país. Há comentadores em estúdio, adeptos à porta do estádio, conferências de imprensa em direto. O modelo é mimético, todos fazem o mesmo. Há um défice de análise, um excesso de palavra redonda.
Também os programas de adeptos, que nunca foram pacíficos, atingiram hoje um grau de agressividade que algumas tiradas de humor não disfarçam. Esse clima passa para os adeptos e acicata os ânimos. A TVI24 parece ter o melhor, ou neste caso o pior, apesar da exemplar moderação de Sousa Martins.
A análise ocupa espaço em particular nos programas semanais. A exceção reside no ‘Tempo Extra’ da SIC Notícias, no ‘Grande Área’ da RTP e, noutro plano mais terra a terra, no ‘Playoff’ também da SIC Notícias. Os espaços da TVI, ‘Mais Bastidores,‘ ganham na dinâmica, na informação que acrescentam e nas notícias que trazem. O ritmo é mais intenso, a análise menos profunda mas mais clara para o espectador.
Os temas de arbitragem, existam realmente ou sejam amplificados ao extremo, ocupam um espaço desproporcional porque se convencionou que geram audiência. E geram. Nesse sentido, a CMTV é quem os trata mais a fundo e com melhor trabalho gráfico. O canal tem também o leque de comentadores mais diversificado e introduziu uma dinâmica que obrigou os outros a andar mais depressa. Finalmente, o espaço que o futebol ocupa nas grelhas, com a honrosa exceção da RTP3, é manifestamente exagerado. Sobretudo porque desvirtuou a oferta. Hoje é difícil saber, só para citar um exemplo, a que horas é o comentário de Manuela Ferreira Leite na TVI24.
A 'Máquina Perfeita'
A forma como o Barcelona venceu em Londres o Arsenal, na terça-feira, demonstra bem o poder da equipa neste momento e a sua superioridade, em condições normais, sobre todas as outras neste momento. A questão no futebol é sempre o que se deve entender por "condições normais", ainda para mais numa competição a eliminar onde um um golo mal anulado, uma expulsão, uma lesão inesperada podem mudar tudo. O Arsenal, como noutras épocas e apesar deste ano poder chegar ao título inglês, é apenas sofrível à escala europeia, mas a forma como o tridente Messi-Neymar-Suarez montou a sua placa giratória e banalizou no quarto de hora final o esquadrão de Arsène Wenger é uma satisfação para quem ama o futebol.
Renato Sanches. É preciso recuar muito tempo para encontrar, no Benfica ou no futebol em Portugal, um jogador que aos 18 anos tenha a maturidade e a personalidade de Renato Sanches. Sobre as suas qualidades futebolísticas e influência na equipa já muitos escreveram, mas os dois traços mais importantes da sua matriz como jogador são precisamente a invulgar maturidade e a maneira altiva, de quem sempre ali esteve, como está em campo. Renato não veio a prazo nem há engano possível. E não é preciso truques para, já na próxima época, estar numa grande equipa da Europa com poderio financeiro.
Bryan Ruiz. Estudioso do futebol, consumidor da muita informação que lhe chega, há muito que Jorge Jesus tinha sinalizado Bryan Ruiz como um nome a ter em conta, na altura para o Benfica, depois para o Sporting. Bryan é o jogador perfeito para o futebol português, onde, apesar de tudo, a intensidade é menor do que noutras ligas. A qualidade do seu jogo – da visão, ao passe e até ao remate para golo fazem o resto. Sem Montero ele vai ser o único parceiro de Slimani.