Sobre a Rússia com amor

José Milhazes
José Milhazes Historiador/Jornalista

Será o doping que faz mover a Rússia?

Realmente algo de estranho se passa com a seleção russa. Uma equipa que passava por uma profunda crise antes do início do Campeonato do Mundo de futebol chega ao torneio e apresenta resultados históricos: inflige pesadas derrotas à Arábia Saudita e ao Egito.

Os futebolistas, alguns deles com velocidades recordes, estão a surpreender os mais céticos, incluindo os próprios adeptos russos que não acreditavam que a equipa fosse além da fase de grupos. Por isso, volta a falar-se do emprego do doping no futebol e recorda-se o triste exemplo da utilização de substâncias proibidas por atletas russos nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2014, que levou à perda de várias medalhas.
Seria bom se a FIFA estivesse atenta a este cancro que corrói o desporto de alta competição e deturpa os resultados desportivos, pois os resultados são obtidos não no relvado, no caso do futebol, mas em laboratórios.

Mas gostaria de atribuir os excelentes resultados da equipa a outros fatores.
Primeiro, os futebolistas russos ainda não enfrentaram nenhum dos grandes do desporto-rei mundial, embora, verdade seja dita, alguns desses grandes ou mostram resultados insatisfatórios, ou até já estão a ficar pelo caminho.
Neste sentido, este Campeonato do Mundo de futebol está a ser uma "caixinha de surpresas", como já aconteceu no Campeonato da Europa de 2016, quando a Seleção Portuguesa foi campeã para surpresa de muitos.

Segundo, o fator ‘casa’ é de extrema importância para qualquer seleção e a da Rússia não é exceção. Está a criar-se uma onda de apoio ao futebol nacional nunca vista depois da queda da União Soviética em 1991, incentivada pela propaganda oficial. Se a organização do Campeonato do Mundo correr bem como até agora correu, uma boa qualificação da seleção russa, mesmo que não chegue a campeã, será a "cereja no topo do bolo" para o Kremlin.

Terceiro, embora a seleção russa não tenha mostrado grandes resultados desportivos até agora, o facto é que, em termos individuais, tem jogadores de qualidade: o guarda-redes Akinfeev, o médio Cherychev ou avançados como Dziuba ou Smolov. Por vezes, a pouca visibilidade do futebol russo moderno deve-se ao facto de serem poucos os jogadores que alinham em equipas estrangeiras e ainda menos os que têm êxito além-fronteiras. Mas, por outro lado, os clubes russos conseguem êxitos nos torneios europeus.

Vamos esperar pelos resultados dos jogos e das análises clínicas dos jogadores para tirar conclusões. As surpresas ainda podem ser muitas.

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