Sobre a Rússia com amor

José Milhazes
José Milhazes Historiador/Jornalista

Um dos sonhos por realizar

Desde o início do Mundial que tinha o desejo de ver as seleções russa e portuguesa frente a frente na final, em Moscovo, mas os milagres são uma coisa muito rara nos nossos dias. Até já estava a pensar nos temas dos textos para novos episódios da série ‘Ronaldo no país dos sovietes’: por exemplo, sobre Nijni-Novgorod, onde Portugal eliminaria a França, sobre São Petersburgo, uma das pérolas da cultura e da arte europeias. Mas Cavani atirou por terra metade do meu sonho. Não há mais nada a fazer e, para que rime, somos um povo condenado a sofrer, a esperar e a crer.

Resta, porém, a seleção russa, que, a despeito de tudo, conseguiu eliminar e mandar para casa uma das seleções mais fortes do Mundo, a espanhola. Não, não apoio os futebolistas russos por terem derrotado os nossos vizinhos, mas por terem dado uma lição de humildade; no fundo, David venceu novamente Golias. Além disso, agrada-me a vitória de um povo que me acolheu durante quase 40 anos.

Uma equipa que, no início da competição, não era levada a sério pelos especialistas, já passou aos quartos-de-final e poderá não ficar por aí. As comparações são sempre muito complicadas e, por vezes, sem grande sentido, mas a seleção russa faz lembrar a equipa portuguesa no Euro’2016: superando, com enormes dificuldades, um a um os obstáculos, até chegar à vitória final.
Isto faz com que o futebol seja um desporto cada vez mais bonito, com resultados inesperados, sem favoritos claros. A Espanha jogou mais do que a Rússia, tal como, no dia anterior, a Seleção portuguesa fez frente ao Uruguai, mas perdeu e vai também ter de regressar a casa antes do programado.

O futebol ganha adeptos em novos continentes e muitos dos tradicionais favoritos e campeões já foram afastados da prova: Alemanha, Argentina, Espanha, Portugal, enquanto que seleções como a nipónica atinge cumes nunca antes alcançados.

Voltando à equipa russa, estes últimos êxitos poderão ser um ponto de viragem no próprio futebol russo, fazer com que este recupere as glórias do desporto-rei na União Soviética, com que apareçam novos nomes neste desporto.

Espero que esta vitória não seja aproveitada para fins políticos menos limpos e chauvinistas. Espero que ela contribua para que a direção russa prefira disputar vitórias desportivas e não militares na casa dos vizinhos. Mas talvez esteja a sonhar, pois escrevi este comentário logo após o apito final no Lujniki, com muitas emoções à mistura.

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