"Macacos me mordam"

Inusitado, quase digno de um filme de Fellini. O que se assistiu no jogo FC Porto–Sporting, envolvendo um espetáculo protagonizado pelos apanha-bolas da equipa da casa, escondendo bolas de forma concertada e alinhada, não fruto de improviso ou devaneio momentâneo, mas de uma mão invisível faz pairar sobre o futebol, e particularmente sobre este clube, práticas antigas que julgávamos banidas do nosso desporto.

Esta nova e jovem classe dirigente dos três grandes do nosso futebol prometia uma lufada de ar fresco, afastando tudo o que de pior traz a clubite inflamada e a paixão levada ao extremo.

Este não é apenas um episódio caricato; é um sinal preocupante de falta de ética e de uma cultura de desmando que, subtilmente, instrumentaliza os mais novos e falha na sua missão pedagógica. Estes jovens são, supostamente, os jogadores do futuro, mas em vez de frequentarem uma escola de virtudes, ensina-se-lhes que vale tudo para ganhar… degradante. O futebol tem esta particularidade: amplifica tudo, a paixão, o entusiasmo, mas também os excessos.

Quando se cruza este momento com episódios recentes e simbolismos que reavivam memórias de fases menos luminosas do futebol português, a reflexão torna-se inevitável. Regressa a perigosa confusão entre resultados e ética, entre vencer e merecer, como se a transparência pudesse ser relativizada quando o objectivo é ultrapassar tudo e todos. Toca-se no fundo não apenas pelo acto isolado, mas pelo que ele representa e pelo padrão que sugere.

Acresce o fenómeno tóxico de certa classe dirigente desportiva, que já extravasa o futebol profissional, onde a opacidade, a retórica defensiva e a ausência de autocrítica corroem a confiança pública. Ninguém está acima de suspeitas, mas a postura de liderança tem um peso simbólico que ultrapassa o campo e molda a percepção institucional.

Importa também olhar para quem tutela o desporto e a cultura. Não basta anunciar planos de desenvolvimento desportivo com pompa e circunstância, ligando-os à saúde e à educação, se nos momentos determinantes não há posições firmes e inequívocas. A Senhora Ministra da Cultura e o Senhor Secretário de Estado do Desporto (ainda por cima alguém oriundo do próprio universo do futebol) têm aqui responsabilidade acrescida.

Senhores governantes: é necessário trocar os lugares reservados nas tribunas por atitude interventiva. É preciso coragem para marcar rupturas claras com comportamentos desviantes e afirmar, sem ambiguidades, que o exemplo conta. Instrumentalizar crianças em idade de formação de personalidade para esconder bolas ou toalhas não é apenas condenável; é um sinal de falência pedagógica. Exige intervenção, mão firme e um simples mas poderoso “Basta”. Porque, se este é o exemplo que queremos para os nossos filhos, então estamos verdadeiramente conversados.

Importa igualmente reconhecer que, em momentos de irracionalidade gerados pela própria paixão do jogo, ninguém está totalmente isento de culpas. Dirigentes, adeptos, comentadores e estruturas, todos, em maior ou menor grau contribuem para o clima que depois se lamenta. É precisamente por isso que o futebol precisa de referências firmes, de memória crítica e de responsabilidade partilhada. Quando a vitória se sobrepõe ao valor e o ruído supera o exemplo, o desporto deixa de ser escola de carácter para se tornar apenas espectáculo de excesso.

E talvez por isso o título não seja mero desabafo humorístico. Num curioso alinhamento de símbolos e coincidências, quando certas figuras associadas à alcunha regressam à ribalta pública, o futebol parece libertar fantasmas que julgávamos encerrados. Não por superstição, mas por fina ironia, fica a sensação de que o grito “macacos me mordam” deixou de ser expressão popular para se tornar espelho involuntário de um ciclo que insiste em repetir-se: mudam-se os protagonistas… e fica tudo na mesma.

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