Quando o "sucesso" é só fachada

No desporto português fala-se muito de sucesso. Demais até. O problema é que, demasiadas vezes, não se define sucesso e esse sucesso não passa de uma fotografia bem iluminada: um palco bonito, um comunicado otimista, uma cerimónia bem montada. E, atrás das cortinas, desorganização, improviso e o eterno desenrascanço.

Trabalha-se mais horas do que seria necessário, gastam-se mais recursos do que seria aceitável e gera-se menos impacto real do que aquele que é anunciado. Ainda assim, no final, há aplausos. Há quem saia convencido de que tudo correu “excelentemente”. Porque “correu” — pelo menos à vista desarmada.

Mas o problema não é apenas organizativo. É estrutural. E é cultural.

Continuamos a olhar para o desporto como um fim em si mesmo: realizar provas, cumprir calendários, apresentar números. Esquecemo-nos, vezes demais, de que o desporto é — ou devia ser — um meio. Um instrumento de intervenção na sociedade civil. Um espaço de inclusão, de coesão social, de responsabilidade coletiva e de criação de valor humano. Sem essa visão, o desporto limita-se a existir para si próprio. Não transforma. Não deixa rasto.

É neste contexto que surge o tema mais incómodo de todos: o financiamento.

Sempre que, nos últimos cinco anos, critiquei o corporativismo instalado e a lógica de um sistema que apenas sabe pedir dinheiro ao Estado, fui violentamente atacado pelos chamados “velhos do Restelo”. Não por dizer algo errado, mas por dizer algo perigoso. Questionar a subsidiodependência é mexer num modelo que vive de migalhas distribuídas, de dependências convenientes e de uma gestão acomodada à escassez.

Um sistema que não quer — nem sabe — lidar com entidades independentes, autónomas e financeiramente responsáveis. Basta olhar para o passado recente e para o presente do desporto nacional: do anterior Presidente do Comité Olímpico, verdadeiro “pai” desta escola, ao atual Presidente da Confederação do Desporto, aluno fiel desta máxima. Muda o discurso, mantém-se o método.

A experiência, porém, ensina. Em quatro anos como Presidente da Associação dos Atletas Olímpicos de Portugal, sempre defendi que o financiamento não seria um problema para uma associação que tinha, até então, um orçamento anual de apenas seis mil euros. E não foi um problema — foi uma oportunidade. Durante esse mandato foi possível estabelecer parcerias com empresas e instituições que totalizaram mais de 500 mil euros, multiplicando por quase vinte vezes o valor disponível anualmente.

Esse caminho incomodou. Incomodou muito. Porque a independência expõe fragilidades. Porque a profissionalização retira desculpas. E porque é sempre mais fácil desvalorizar quem faz diferente do que mudar práticas enraizadas.

Mais recentemente, na Federação Portuguesa de Atletismo, onde desenvolvi trabalho de consultoria, foi possível, em apenas um ano — e apesar de muitos e variados obstáculos internos e externos — repetir esse valor: 500 mil euros, agora num único ano. O processo culminou num contrato de excelência com uma entidade bancária de referência, que acreditou e valorizou uma proposta de valor assente em três pilares estratégicos: identidade, responsabilidade social e aumento do número de praticantes.

Não houve magia. Não houve sorte. Houve estratégia, gestão profissional e uma proposta de valor clara. Pedir dinheiro sem visão é perder tempo. O dinheiro não foge. O dinheiro segue a competência, a credibilidade e o impacto social. Sempre seguiu.

O que falha, recorrentemente, não é a falta de dinheiro no sistema. É a falta de capacidade para o atrair. Confunde-se financiamento com subsídio. Parceria com esmola. Autonomia com ameaça. Enquanto assim for, o desporto continuará refém de ciclos curtos, dependente de vontades políticas que adoram a subsidiodependência e incapaz de construir projetos verdadeiramente sustentáveis.

E aqui chegamos ao ponto que muitos preferem evitar: o desporto português precisa de abandonar definitivamente o amadorismo dirigente e a lógica da carolice. Boa vontade não substitui competência. Paixão não substitui método. O voluntarismo tem limites quando se gerem dinheiros públicos, parceiros estratégicos e projetos com impacto social.

O futuro exige dirigentes profissionais. Pessoas qualificadas. Remuneradas — e bem remuneradas quando necessário. Avaliadas por resultados. Responsabilizadas pelas decisões que tomam.

A grande ironia é esta: continua a aplaudir-se o resultado visível sem perceber o verdadeiro custo desse “sucesso”. Mais horas. Mais custos. Menos eficiência. Menos casos verdadeiramente transformadores. Monta-se um palco bonito. Por trás, as cordas estão gastas. Aguenta… até ao dia em que deixa de aguentar.

O desporto, como a vida, não perdoa o amadorismo. O profissionalismo cria oportunidades. O improviso cria problemas.

No fim, a questão é simples: o desporto só faz sentido quando cria valor para lá da competição. Quando é inclusivo, responsável e socialmente relevante. O desporto português precisa de menos espectadores encantados com a aparência e de mais dirigentes capazes de construir autonomia, credibilidade e futuro.

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