1 - Há males que, se não forem cortados a tempo, transformam-se numa doença incurável e contagiosa. A permanência de Vítor Bruno como treinador do FC Porto era um desses. Para mim, tornou-se claro, ao longo do tempo e das sucessivas asneiras e teimosias cometidas, que a coisa não teria remédio, mas percebo que André Vilas- Boas tenha esperado até ao limite do suportável, antes de se dar por vencido. Porém, continuar a insistir num milagre de súbita competência era um risco bem maior do que o do simples fiasco da equipa de futebol na presente época: era pôr em causa a ‘libertação’ do FC Porto das garras dos salteadores da arca do tesouro perdida que a retumbante vitória de Villas-Boas nas urnas tinha iniciado. Como se vinha tornando claro – pela última Assembleia-Geral ou pelo comportamento das claques em Barcelos (imitando os sportinguistas e benfiquistas com as tochas lançadas para o relvado) – os vencidos de Maio, aqueles que tinham perdido o direito de pernada sobre o clube, não apenas desejavam o insucesso da equipa, como tudo fariam para tirar partido dele. A solidariedade para com Vítor Bruno estava a ameaçar seriamente a regeneração - económica, ética e cultural - do clube. O FC Porto era um navio descomandado e desgovernado, vogando para parte incerta, mas sobrevoado por um céu de milhafres prontos a atacar os destroços do naufrágio.