Todos os pesadelos são cruéis

1- Numa noite chuvosa e ventosa de Janeiro, os 28.000 portistas que, contrariando todos os pessimismos, se aventuraram no Dragão para assistir ao FC Porto-Santa Clara despediram no final os cabisbaixos jogadores da casa com uma tremenda assobiadela, enquanto os visitantes – a ‘equipa-sensação’ do campeonato – festejavam o empate como uma retumbante vitória e o seu treinador celebrava eufórico o feito e "o grande jogo da equipa". Como o futebol pode ser cruel! Os jogadores do FC Porto, arrostando com o vento, a chuva e a instabilidade emocional de quem vinha de quatro derrotas seguidas, tudo fizeram para alcançar a vitória: doze oportunidades de golo, duas bolas nos postes, um golo anulado, dois penalties falhados e respectivas recargas. Do outro lado, bem recolhidos e acantonados no conforto da sua área, os açorianos limitaram-se a defender sempre em 20 metros de terreno, com um só remate em 90 minutos, que lhes deu um golo feliz – "um grande jogo", para Vasco Matos. Não serei injusto ao ponto de desconsiderar a imensa diferença de meios e de orçamentos que vai de um Santa Clara e outras equipas semelhantes à dos chamados grandes do nosso futebol. Mas o mesmo sucede nos outros campeonatos e, tirando as situações de total e genuína impossibilidade no medir de forças, não vejo as equipas pequenas com a mentalidade de anti-jogo que as nossas cultivam. Lá fora, persiste uma atitude cultural de respeito pelo jogo, pelos adeptos e pelo brio próprio que impede as equipas pequenas de se conformarem e regozigarem por disputarem um jogo inteiro em que não querem saber onde fica a baliza do adversário. Cingindo-me unicamente às duas jornadas mais recentes, vi o Famalicão perder 1-0 na Luz, radiante com o resultado e sem a menor veleidade de tentar o empate; o Rio Ave, tão determinado em não incomodar o Sporting, mesmo jogando em casa, que não esboçou a menor tentativa de arriscar qualquer coisa e logo aos 3 minutos já tinha feito um auto-golo; o Nacional, em Alvalade, com apenas dois remates, sem qualquer perigo de poder acertar; e o Santa Clara, de princípio a fim alegremente instalado na sua área como se estivesse a defender o Álamo. Todos eles, além do mais, enfrentando equipas desgastadas pelos jogos europeus a meio da semana. Há muito que penso que o campeonato devia ser reduzido a doze equipas, jogando a quatro voltas, e, quando vejo tantas delas que apenas querem não descer seja de que forma for, mais me convenço que o adiamento dessa reforma é uma das razões principais para a progressiva perda de capacidade do futebol português de clubes face à concorrência externa.

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