Passe e devolução

Nuno Amado
Nuno Amado

O Mundial na era da estratégia

Diz-se por aí que, depois das evoluções tácticas da última década, que se caracterizaram acima de tudo pelo advento da ideia de modelo de jogo (os jogadores passaram a comportar-se constantemente em função de uma ideia de jogo concreta, modelada em treino), entrámos agora na ‘era da estratégia’. A expressão visa assinalar uma mudança de paradigma: uma vez que, ao mais alto nível, já todas as equipas funcionam de acordo com um modelo trabalhado com rigor e já não há equipas desorganizadas, nas quais os jogadores se comportem como bem lhes apetece, a diferença far-se-á muitas vezes pela estratégia particular de cada jogo, sendo por isso mais competente a equipa que melhor trabalhar para contrariar o próximo adversário e, por isso, a equipa que melhor souber adaptar-se às circunstâncias específicas de cada jogo. Ter uma ideia de jogo muito bem definida, e ter os jogadores preparados para jogar de uma determinada maneira, sejam quais forem as circunstâncias, terá assim passado para segundo plano. Não deixando de ser importante, já não é aquilo que faz a diferença nesta nova era. De acordo com a doutrina da ‘era da estratégia’, aquilo que faz a diferença é a forma como a equipa se prepara para explorar as fraquezas específicas de cada adversário e a forma como tenta anular os pontos fortes desse adversário.

A principal implicação desta doutrina é a de que, para estar mais perto do sucesso, nenhuma equipa pode ser predominantemente ofensiva ou predominantemente defensiva. Se o que faz a diferença é a forma como, jogo a jogo, a equipa se adapta às circunstâncias, o sucesso estará necessariamente mais perto daquela equipa que ora se defende de adversários que gostam de assumir a iniciativa, ora ataca adversários que não se importam de cedê-la. Como não é possível optimizar duas maneiras de jogar completamente diferentes (são aliás pouquíssimas as equipas que conseguem optimizar uma única maneira de jogar), o que acontece é que as equipas que aceitam de algum modo a importância da estratégia no jogo nem são particularmente boas a defender-se de adversários predominantemente ofensivos, nem são particularmente boas a atacar adversários predominantemente defensivos. Não é aliás raro que muitas destas equipas consigam um resultado óptimo num fim-de-semana contra um adversário muito competente do ponto de vista ofensivo, o que parece validar a estratégia adoptada, e depois obtenham um péssimo resultado no fim-de-semana seguinte contra um adversário menos competente.

Estas equipas, na verdade, sempre existiram. Sempre houve quem desse mais importância à ‘estratégia’ do que a outra coisa qualquer. O que aconteceu sobretudo na última década é que, justamente pelo advento de ideia de modelo jogo, e pelo aparecimento de alguns modelos muito bem trabalhados, as equipas que faziam da ‘estratégia’ a sua única arma não tiveram grande sucesso. Com o aparecimento de várias equipas com uma ideia de jogo muito definida, com padrões de comportamento muito bem treinados, e com uma lógica de jogo concreta, aplicável a todos os desafios, as equipas que privilegiavam a adaptação às circunstâncias, que modificavam a sua maneira de jogar em função do desafio que tinham pela frente, deixaram de ter espaço para triunfar. A ‘estratégia’ é relevante, por isso, apenas quando o modelo de jogo não o é. A ideia de que, passada a era dourada dos modelos de jogo, se segue agora a era não menos reluzente da ‘estratégia’ é por isso falaciosa. Aquilo a que chamam ‘estratégia’ sempre existiu. Quando as equipas não têm ideias próprias, normalmente têm ‘estratégias’. Não se apresentam em campo para jogar o seu jogo, mas para jogar em função daquilo que, por antecipação, acreditam que vá ser o jogo do adversário. Sempre existiram equipas destas. E o sucesso destas equipas sempre foi maior quanto menos bem trabalhadas, e por isso mais dependentes da sua própria ‘estratégia’, eram as equipas adversárias. Como em qualquer jogo ou em qualquer confronto que oponha duas forças antagónicas, a estratégia tem a sua importância, mas nunca a expensas de um modelo ou de uma identidade própria.

Há um lado de verdade, no entanto, na ideia de que estamos a viver uma ‘era da estratégia’. Por razões que me escapam (posso apenas conjecturar que a importância desmedida que se dá hoje às intenções dos treinadores no que se passa dentro das quatro linhas tenha alguma coisa a ver com isso), há hoje em dia uma obsessão com a ‘estratégia’. Uma grande quantidade de treinadores considera que o sucesso da sua equipa passa em grande medida pela análise do adversário seguinte e pelo plano de jogo que decide adoptar em função dessa análise. E, convencidos de que os jogadores são marionetas que a todo o momento o marionetista espertalhão consegue manobrar a partir de fora, vão a jogo julgando que, se os jogadores fizerem o que prescrevem, a vitória não lhes escapa. O grande problema destes treinadores é não perceberem que o futebol é um jogo de circunstâncias atípicas. Ainda que consigam preparar os jogadores para três ou quatro aspectos, não os preparam para a atipicidade do próprio jogo. E ficam por isso muito mais à mercê dos imponderáveis.

O mundial de 2018 tornou evidente essa obsessão. A quantidade de equipas que abdicou literalmente da iniciativa e se resguardou num bloco baixo, muitas vezes com os onze jogadores enfiados nos últimos trinta metros, unicamente à espera de um erro em posse do adversário para sair numa transição que lhes garantisse a vantagem no marcador, foi assustadora. A ‘estratégia’, no caso destas equipas (por exemplo, Rússia, Uruguai, Irão, Portugal, França, Austrália, Islândia, Dinamarca, Suécia, Suíça, Panamá, Senegal), era óbvia: defender com muitos, para tornar mais difícil a aproximação dos adversários à baliza, e atacar apenas pela certa, para não dar ensejo a contra-ataques indesejados ou inferioridade numérica em momento defensivo. É claro que nem todas o fizeram com o mesmo compromisso e é claro que, em casos de desvantagem, algumas destas equipas adoptavam posturas diferentes. Mas a postura-padrão destas equipas foi este. Para todas elas, a iniciativa nunca foi importante. A não ser que precisassem mesmo de marcar. Se acrescentarmos a estas aquelas equipas que, em vantagem, não se incomodavam em baixar linhas e em dar a bola ao adversário, temos quase a totalidade dos participantes no mundial. À excepção da Espanha e da Alemanha (apesar de nunca abdicarem da iniciativa, nunca foram competentes a explorar a posse como noutras alturas e não foram capazes de vencer a própria soberba) e do Japão e do México (as duas melhores excepções deste campeonato), as restantes selecções não apresentaram uma identidade própria. Jogavam aquilo que o adversário deixava jogar, moldando-se consoante as necessidades: se por acaso precisavam de ir à procura de um golo, assumiam as rédeas do jogo e arriscavam um pouco mais; se não, atacavam só pela certa; e, em vantagem, assumiam que competia ao adversário impor-se e limitavam-se a esperar que o relógio andasse.

Este predomínio da ‘estratégia’ reflectiu-se de vários modos. Em primeiro lugar, na qualidade dos espectáculos. É preciso recuar a 2002 (justamente no apogeu da última ‘era da estratégia’), para encontrarmos tantos bocejos. À monotonia de grande parte dos desafios junta-se, por exemplo, a quase inexistência de momentos de génio ao longo de todo o torneio. À excepção de alguns bons golos, não se viram na Rússia grandes rasgos individuais ou combinações bem pensadas. Houve muitos momentos de vertigem, de entusiasmo junto às balizas e de superação atlética. Mas criatividade quase não se viu. E não se viu porque os criativos, inseridos numa ideia de jogo que privilegia a ‘estratégia’, foram quase sempre abandonados a si mesmos. A quantidade de grandes penalidades assinaladas e de autogolos (o maior número de sempre) também é um sintoma deste futebol das ‘estratégias’: quando se mete tanta gente atrás da linha da bola o tempo todo, quando se defende à molhada dentro da área, quando se convence os jogadores de que é boa ideia dar a vida apenas para evitar que um adversário ganhe vinte centímetros, é natural que a confusão seja maior, que as bolas divididas se sucedam, que as faltas se acumulem e que os alívios levem a direcção contrária à desejada. O enorme número de golos de bola parada, aliás, explicam-se da mesma maneira. Na ‘era da estratégia’, há menos jogo a meio-campo. Como tal, não só as zonas de pressão são mais próximas das áreas, o que faz com que naturalmente haja mais faltas nessas zonas, como o número de pontapés de canto tenderá a ser maior.

Sendo um jogo de pontuações baixas (quando comparado com outros desportos jogados com bola), o futebol é também o jogo em que os detalhes têm maior peso. Idealmente, o papel de um treinador deveria ser o de preparar a sua equipa para que esta dependesse o menos possível de todos os imponderáveis e para que os detalhes fossem o menos decisivos que pudessem ser. Além da fraca qualidade do futebol que praticam, as equipas que apostam tudo na ‘estratégia’ ficam assim também muito mais dependentes dos detalhes, de uma bola parada no último minuto, de uma mão involuntária na área, de uma abordagem deficiente a um cruzamento e que direcciona a bola para a própria baliza, etc.. E não será ‘estratégia’ também promover um futebol que procure reduzir a probabilidade de estas coisas acontecerem?

Quando se fala de ‘estratégia’, em futebol, pensa-se invariavelmente em equipas cínicas, com muito mais preocupações defensivas do que ofensivas, em equipas que sacrificam a sua maneira de jogar para se precaverem das principais armas do adversário, e em equipas que defendem com muitos e durante a maior parte do tempo, e que atacam cirurgicamente. Tendemos a achar que defender primeiro para atacar depois é ‘estratégico’ e, em contrapartida, nem sequer concebemos que atacar muito para ter de defender pouco conte como estratégia. Esta obsessão com a ‘estratégia’ não é senão cobardia. É mais fácil definir estratégias defensivas que consistam em amontoar jogadores atrás e esperar por um erro do adversário ou uma qualquer ajuda divina do que em definir estratégias ofensivas, e é mais fácil pedir aos jogadores para ficarem fechadinhos à espera do milagre das rosas do que trabalhar de modo continuado para que os jogadores saibam por si próprios o que fazer em cada situação de jogo. Na ‘era da estratégia’, os jogadores são mais tarefeiros do que artistas. Aquilo que se espera deles é que cumpram a sua missão em campo e mais nada, de modo a que a estrategiazinha do treinador supere a estrategiazinha do treinador adversário. É por isso natural que o espectáculo se ressinta. Na ‘era da estratégia’, não surpreende que o campeonato do mundo se tenha pautado pela mediocridade. Suponho que, tirando uma ou outra curiosidade, não vá deixar grandes saudades, e antevejo que muito pouco do que aconteceu na Rússia ao longo deste último mês fique na memória dos vindouros. A posteridade costuma ter o bom gosto de não dar assento a cobardes e de não convidar medíocres para jantar.

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