O Monstro

Estou ainda em estado de choque com as contas que a FC Porto SAD acaba de apresentar, atingindo um resultado negativo de 116 M€ neste último ano. Tenho vindo a falar, a escrever e alertar nestes últimos anos sobre o tema das finanças do FC Porto. Estranho o facto de ser o solista destas preocupações, uma vez que os demais comentadores do FC Porto ficam sem voz sempre que este tema aparece. O FC Porto, clube onde milito há mais de 25 anos, tem hoje uma fachada protegida por ser um clube considerado "monumento nacional", mas apresenta uma casa em ruínas. A gestão financeira, salvo tímidos episódios de resultados positivos que já elogiei, tem-se revelado um desastre completo. Uma conta simples é esta, o passivo do FC Porto em junho de 2015 era de 276 M€, sendo hoje de 452 M€. Ou seja, os dois títulos de campeão nacional conquistados neste período tiveram um custo efetivo de... 88 M€ cada um no agravamento da nossa dívida. Recordo ainda que, durante estes anos, não houve investimentos de vulto. O Dragão, o Olival e o Dragão Caixa foram obras meritórias de um passado já longínquo, pelo que se conclui que o dinheiro gerado pelas majestosas vendas do Dragão foi consumido e delapidado em custos fixos (salários, por exemplo), nos fornecimentos e serviços, em muitas contratações ruinosas (quer para o plantel principal, quer para a equipa B) sempre acompanhadas pelas demais comissões e nos inexplicáveis níveis remuneratórios dos administradores da SAD (onde em alguns anos se incluíram os prémios de gestão) que ainda hoje auferem. Desenganem-se os sócios que foi a Covid-19 o único responsável por esta derrocada. O verdadeiro vírus que tem acompanhado as finanças da SAD nestes últimos cinco anos tem sido o da irresponsabilidade e da incompetência. A pandemia deste ano ajuda a perpetuar a já débil situação financeira do FC Porto e condiciona o futuro imediato do clube. Vejam bem o sofrimento que foi no ano passado, em que o FC Porto só pôde contratar a partir de 1 de julho por causa do fair play financeiro. Já este ano teve de fazer cortes salariais aos jogadores e só pôde comprar quando vendeu. Se reconheço grandes qualidades ao meu presidente, Pinto da Costa, não percebo a sua teimosia em manter um administrador financeiro com tal currículo de gestão. Era como se Sérgio Conceição ainda hoje jogasse com Depoitre a ponta-de-lança. A memória não me falha e percebo a gratidão do FC Porto ao dr. Fernando Gomes, que tão importante foi na edificação do Dragão enquanto edil da Câmara do Porto. Mas a gratidão deve ter limites. O monstro da dívida cresce desalmadamente com uma fúria vertiginosa. Não seria melhor reformar o seu criador, sr. presidente? Estes resultados são uma vergonha para a nossa história.

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