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No Sporting a memória já pesou mais do que no presente, e muito fruto dos sucessos recentes. No entanto Rui Borges começa a ver o seu trabalho inevitavelmente comparado a capítulos anteriores, e poucos terão sido mais marcantes do que a época "pé frio" de José Peseiro" em 2004/2005.
Rui Borges construiu uma equipa competitiva sobre os escombros da passagem de João Pereira pelo comando técnico verde e branco. Rompeu com a defesa a 3 de Rúben Amorim, e sustentou a sua proposta de jogo sobre um 4-2-3-1 fiel ao clássico 4-3-3 da escola portuguesa de futebol de onde nunca saiu. Relativamente aos seus predecessores corrigiu os equilíbrios dinâmicos da equipa quer no processo defensivo quer no plano ofensivo com uma nuance clara: maior proteção ao corredor central e transições mais controladas.
O Sporting apresentou, durante largos meses, um futebol consistente, com vitórias marcantes tanto no campeonato como na Europa, muito forte no seu reduto, culminando numa presença nos quartos de final da Liga dos Campeões — um feito relevante no contexto europeu da história do clube.
Também Peseiro, em 2005, moldou um Sporting forte dentro de um modelo semelhante, ainda que mais ofensivo na sua interpretação. O seu 4-2-3-1 tinha maior liberdade criativa e chegou a momentos de grande qualidade exibicional, levando a equipa à final da Taça UEFA, perdida em Alvalade frente ao CSKA, e mantendo-se na luta pelo campeonato e taça até à reta final. A comparação ganha força quando se olha para o detalhe cruel do calendário. Peseiro viu escapar, em poucos dias, a final europeia o campeonato, e a taça. Rui Borges vive agora um cenário inquietantemente próximo: eliminação europeia recente em Londres, derrota caseira no dérbi com o Benfica que praticamente afasta o Sporting do título, e uma deslocação ao Dragão que pode definir tudo, e tem tudo para ser muito complicada para uma equipa que vem de duas valentes desilusões.
A questão impõe-se: estará Rui Borges a caminhar para um destino à Peseiro? A resposta não está apenas nos resultados, mas na forma como a equipa reagirá. Porque, tal como no passado, o julgamento dos adeptos poderá ser ingrato, e o estado anímico de graça e de confiança na capacidade de liderança de técnico, impossível de de recuperar caso o Sporting não vá ao Dragão acertar contas com um FC Porto, já quase virtual campeão 2025/26.