José Mourinho chegou ao Benfica com uma ideia definida: transformar a equipa num onze mais agressivo, mais simples de processos, de decisão célere, mais vertical em todos os momentos do jogo. Uma visão coerente com o discurso de rutura na continuidade mas que rapidamente esbarrou numa realidade difícil de contornar: o plantel não havia sido construído para esse modelo.
Faltavam ao Benfica perfis capazes de sustentar uma pressão com bola mais penetrante capaz de ganhar metros em condução e acelerar o jogo de forma sistemática sem comprometer o equilíbrio coletivo. A ideia inicial era ambiciosa, mas a matéria-prima disponível revelou limitações claras para a executar com eficácia e continuidade.
É neste ponto que o mérito passa para o banco.
Mourinho leu, e assumiu, o que muitos treinadores teimam em ignorar: não o que a equipa queria ser, mas aquilo que conseguia ser.
Perante essa constatação, ajustou o modelo, pautou ritmos e encontrou melhor resposta num futebol mais equilibrado, com construção mais evolvente e de maior controle posicional.
Nos contextos de maior exigência competitiva, o Benfica cresceu no bloco médio, melhor organizado entre linhas e com uma gestão mais inteligente dos momentos do jogo. A agressividade manteve-se, mas tornou-a mais racional.
Menos ímpeto, mais critério. Menos verticalidade automática, mais intencionalidade.
As escolhas táticas refletem essa inteligência: alternância de sistemas, adaptação dos perfis no meio-campo e laterais mais contidos, protegendo a equipa das transições que tantas vezes a expunham.
O Benfica tornou-se mais curto, mais sólido e, sobretudo, mais competitivo.
Este Benfica não é o produto de um planeamento perfeito. É o resultado de um treinador que soube corrigir o que tinha (mal) planeado.
Num futebol onde muitos se afundam com a própria ideia, e são elogiados por isso (!?), Mourinho voltou a provar que ganhar começa por perceber o que se tem, e não o que se idealiza ter.
