Nuno Félix

Nuno Félix Scout internacional

O abismo invisível onde o futebol português vai cair

O futebol português vive da ilusão. Vendido internamente como um produto televisivo de elite, não é minimamente reconhecido no exterior e sobrevive num ecossistema frágil e desequilibrado, alicerçado em contratos televisivos desfasados da realidade europeia. 

Enquanto a Premier League distribui 3,5 mil milhões de euros/ano em direitos de TV (média de 175 M€/clube), a Liga Portugal partilha cerca de 180 M€/ano, ou seja, pouco mais de 9 M€/clube. A diferença não é só abismal. Poderá ser terminal.

A Liga espanhola garante 1,6 mil milhões/ano, a Bundesliga 1,3 mil milhões, e até a Ligue 1 — com uma grave crise interna de competitividade — mantém valores próximos dos 700 milhões. Em Portugal, vive-se completamente à margem deste campeonato financeiro, com clubes dependentes de mais valias resultantes da vendas de jogadores e de investidores estrangeiros para pagarem a conta da luz ao final do mês

Pior: o contrato que vigora em Portugal foi fechado em 2015, antes da explosão do digital, e mantem valores muito abaixo do mercado. Com a queda de audiências na televisão linear e a fragmentação do consumo (YouTube, TikTok, Twitch), a próxima renegociação corre o risco de não só não aumentar, como até de baixar esses valores — um cenário trágico para clubes que, como é o caso do Sporting Clube de Braga, têm mais de 60% das receitas dependentes da  NOS e de participações nas competições da UEFA.

A sustentabilidade do negócio está portanto no domínio do pensamento mágico com que se projetam rendimentos futuros sem investimento e racionalidade no presente. Os clubes grandes já criaram canais próprios e plataformas OTT; os pequenos, porém, não terão músculo para resistir à mudança nem massa crítica ao nível do universo dos seus sócios e adeptos que permitam dar corpo a esta transição, porque é bom lembrar que existem clubes na primeira divisão que com menos de 1000 sócios pagantes!

A Liga fala em centralização, mas continua sem plano estratégico que encare com seriedade esta realidade. Enquanto isso, os adeptos desligam-se, os jovens trocam o futebol por eSports e o produto degrada-se.

Portugal pode ter talento e paixão. Mas sem um novo modelo competitivo, fiscal e comercial, continuará a exportar craques... e a importar falências.

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