Nuno Félix

Nuno Félix Scout internacional

O Porto de Farioli:  a jogar assim o caminho será a descer

Quando Francesco Farioli deixou o Ajax após a súbita e dramática derrocada na Eredivisie os números ainda assim impressionavam, e frustravam, em igual medida. 

Sob o comando do italiano, o Ajax reduziu drasticamente os golos sofridos em relação à época anterior: 32 sofridos contra 61, e esteve 16 jogos sem sofrer golos, num salto qualitativo evidente.

Esse Ajax acumulou 78 pontos, com uma média de 2,29 por jogo, uma boa estatística para o clube de Amesterdão que poderia ter dado o almejado campeonato... mas não deu. A temporada ficou marcada, isso sim, por um colapso final! E ficará para a história como "a equipa que liderava a liga com 9 pontos de vantagem a 5 jornadas do fim" e mesmo assim perdeu!

Este paradoxo histórico sintetiza bem o perfil das equipas de Farioli: defensivamente extremamente sólidas, ofensivamente capazes, mas frequentemente dependentes de margens demasiadamente estreitas nos seus resultados durante os 90 minutos. 

Tal como no Porto deste ano, na Eredivisie 2024/25, o Ajax de Farioli não se destacou por uma avalanche de golos, ao longo da época manteve uma produção ofensiva inofensiva se comparada com a dos rivais PSV que viriam a ganhar o campeonato. As vitórias aconteciam com muitos resultados de apenas 1 golo de diferença. Esse padrão criou uma dependência acentuada da solidez defensiva, com pouca margem para falhas quando a eficácia ofensiva não abundava.

Esta filosofia aplica-a agora ao FC Porto de 2025/26, onde Farioli transformou os dragões no bloco mais difícil de furar da Liga Portugal. Os números são impressionantes, o FC Porto marca uma média aceitável de 2,05 golos por jogo, que, ainda assim, anda muito longe das médias com as quais, por exemplo, o Sporting foi bicampeão (2,82 e 2,59 golos por jogo respectivamente). Mas o que chama verdadeiramente a atenção nesta versão 2025/2026 dos azuis e brancos, é a média de apenas 0,3 golos sofridos por jogo, um nível de solidez nunca visto em Portugal! Nos últimos 5 campeões a defesa menos batida foi a do Benfica de Schmidt com 0,59 golos sofridos por jogo (a média estatística neste modelo da competição ronda os 0,8 golos sofridos em média pelo vencedor). 

Esse equilíbrio, no entanto, é sintomático do que gerou dúvidas em Amsterdão: muito foco na intensidade defensiva e pragmatismo no ataque, sem uma produção continua e avassaladora de jogo e de golos, o que acaba por tornar o sucesso/vitória intrinsecamente dependente de pequenas margens.

Em números puros: Porto tem um interessante saldo positivo de +35, fruto de 41 golos marcados e apenas 6 sofridos em 20 jogos na liga portuguesa, mas numerosos triunfos surgiram por diferenças mínimas de 1 golo. Sendo que nesse capítulo compara muito mal com o Sporting de Rui Borges que tem apenas +8 no chamado "goal average" mas que já marcou +13 golos na mesma competição.

E aqui reside a tensão táctica que merece reflexão crítica: equipas que cumprem resultados com margens estreitas — muitas vezes 1-0 ou 2-1 — tornam-se susceptíveis a quebras de confiança quando um golo sofre impacto fora do previsível. 

No Ajax de Farioli a história que ficou do final de época, em que a liderança se desmoronou em resultados que não seriam dramáticos por si só, ilustra bem como um modelo de “forte atrás mas pouco exuberante à frente” pode pagar um preço elevado quando o rendimento ofensivo encontra dificuldades ou oscilações, mesmo que com uma vantagem pontual significativa a poucas jornadas do fim.

No FC Porto atual, que entretanto sofreu uma derrota inesperada frente ao Casa Pia (onde os dois golos sofridos representaram metade dos sofridos em 19 jornadas anteriores), esse risco começa a surgir na mente dos adeptos como um “fantasma Farioli”, justamente por essa memória de gestão de vantagem estreita e consequente retrocesso emocional e de resultados nos momentos decisivos.

O problema central do modelo é precisamente este: quem constrói vitórias por margens curtas corre o risco de que uma variação estatística natural, um erro individual ou um dia em que o ataque esteve menos inspirado tenha impacto desproporcional no resultado final. 

Uma equipa que marca relativamente poucos golos em relação à solidez defensiva vive num equilíbrio tênue. 

Por comparação com uma equipa que esteja habituada a marcar com facilidade, numa equipa de baixo rendimento ofensivo, um golo sofrido é uma imensa perturbação que pode levar a uma queda maior dos índices de confiança coletiva do que numa equipa com produção ofensiva mais incisiva.

Este fenómeno não é exclusivo de Farioli, mas em ambos os casos — Ajax 2024/25 e FC Porto 2025/26 — há padrões estatísticos e tácticos claros. Porque muitas partidas decidem-se por um único golo, o optimismo colectivo pode evaporar-se rapidamente após um deslize, e a própria confiança do plantel flutuar em função de resultados que, em equipas ofensivas, seriam meramente “dias maus”.

No Porto, apesar dos números e da liderança confortável na tabela portuguesa, o desafio de manter esse equilíbrio até ao fim da temporada, com a pressão adicional das competições europeias e o desgaste físico inerente a uma filosofia de jogo de alta intensidade, será a verdadeira prova da sustentabilidade do modelo Farioli.

Em suma: Farioli constrói defesas difíceis de furar. Mas quando mete água a tripulação do navio entra em pânico e deixa de saber remar de seguida como se viu com o desnorte final frente ao Casa Pia.

O futebol é, afinal, uma arte de margens de erro, e as margens de Farioli demasiado curtas. 

Apesar do início promissor, a matemática conspira contra esta filosofia de jogo, e no Dragão como aconteceu antes em Amesterdão, um Futebol Clube do Porto que já não está invicto poderá começar a duvidar a partir de hoje se jogar assim chega para ser campeão.

Deixe o seu comentário

Pub

Publicidade