O despedimento de Rúben Amorim do Manchester United foi o epílogo previsível de um processo que começou muito antes da confirmação dos maus resultados desportivos.
Desde cedo, o treinador português viu o seu trabalho ser criticado, questionado e, em alguns momentos, claramente minado por antigas figuras do clube que hoje ocupam espaço mediático relevante. Gary Neville, Roy Keane e outros ex-símbolos do United não se limitaram à análise: pressionaram publicamente, anteciparam o fracasso e normalizaram a ideia de que Amorim nunca seria “o homem certo”.
Ainda assim, não se pode ilibar o treinador. Amorim abordou a sua primeira experiência no estrangeiro com uma rigidez excessiva nas ideias, quase dogmática. Insistiu num modelo e em princípios que não dialogavam com o perfil do plantel, revelou pouca flexibilidade estratégica e demorou a perceber que, num clube desta dimensão, a adaptação é uma exigência diária. Essa teimosia custou-lhe tempo e crédito, dentro e fora da estrutura do clube.
Mas a história recente do United mostra que Amorim não foi a exceção, foi a continuidade. Antes dele falharam David Moyes, Louis van Gaal, Ole Gunnar Solskjær e Erik ten Hag. Treinadores com perfis, ideias e currículos radicalmente distintos. E coloco à parte o nome de José Mourinho porque se formos a ver bem, com Mourinho o MEU ainda disputava a Premier e conquistava troféus.
Todos sucumbiram ao mesmo problema estrutural: um clube sem uma estratégia futebolística clara de médio/longo prazo. Plantéis desequilibrados, inflacionados e pobres em liderança competitiva. E acima disso, uma gestão orientada não para o sucesso desportivo, mas para a exploração comercial da marca. A "Glazer family" transformou o United numa máquina de imprimir dólares onde o futebol é secundário e o treinador, descartável.
Amorim falhou porque não se adaptou. O United continua a falhar porque deixou de se reconhecer ao espelho. E enquanto ex-glórias moldarem o debate público e a prioridade for o lucro, Old Trafford continuará a ser um palco de despedimentos, e não de reconstruções.
