Rui Borges preparou-se para o Dragão. Reconhecido pela fidelidade às suas dinâmicas habituais, o treinador do Sporting optou por mexer no tabuleiro: Francisco Trincão partiu da esquerda, Geny fixou-se à direita e Pedro Gonçalves surgiu no relvado do Dragão mais pelo centro, numa lógica clara de controlo e compensação do corredor central sempre que a equipa da casa estivesse com bola.
A ideia era condicionar, ainda que de formas distintas, os laterais do FC Porto. E durante os primeiros 15 minutos resultou. A velocidade e verticalidade de Jani Catamo criaram dificuldades a Martim Fernandes, adaptado ao lado esquerdo da defesa portista, numa escolha de Farioli que, tudo indica, já antecipava a necessidade de ter um lateral capaz de acompanhar a profundidade do extremo leonino. O Sporting entrou melhor, mais agressivo nos corredor direito e com critério na ocupação dos espaços interiores, mérito de Pedro Gonçalves.
Do lado oposto, esteve Francisco Trincão. Defensivamente cumpriu. Condicionou as subidas de Alberto Costa, ajudou Maxi Araújo nas coberturas e garantiu equilíbrio. Taticamente, o plano fazia sentido: fechar fora, controlar dentro e proteger o meio com Pedro Gonçalves numa zona onde é mais consistente sem bola do que Trincão.
O problema surgiu com bola.
Colocado na esquerda, Trincão perde aquilo que o distingue: a capacidade de vir de fora para dentro em condução curta, com apoios próximos, a temporizar até descobrir o momento certo para libertar o pé esquerdo. À esquerda ficou mais previsível, mais afastado do centro da decisão. E o Sporting vive muito da criatividade deste jogador, que cresceu para um patamar competitivo que faz dele o mais profícuo desequilibrador da Liga Portugal.
Só quando Trincão apareceu mais por dentro, numa espécie de posição 10, é que o jogo mudou. A partir daí, surgiram as conduções progressivas, as combinações curtas, o remate em arco que levou perigo e, acima de tudo, a sensação de que o Sporting tinha finalmente alguém capaz de rasgar por dentro a estrutura defensiva do Porto. A reação leonina na segunda parte passou muito pelos seus pés, sobretudo após o golo sofrido.
Podemos especular: e se tivesse começado assim? Ou na direita, onde é fica mais confortável a atacar espaços interiores?
O que é certo é que, até passar para o meio, Trincão foi quase invisível ofensivamente.
Há mérito na leitura inicial de Ruy Borges. Houve preparação, houve surpresa e houve impacto. Mas também é justo dizer que demorou a reagir quando o Porto ajustou, após a pausa técnica para assistência à "lesão providencial” de Diogo Costa, que permitiu a Farioli passar novas instruções a partir do banco e anular o fator surpresa.
A entrada tardia de Luís Guilherme e a demora em libertar Trincão para zonas centrais custaram tempo e, talvez, outro resultado ao bicampeão nacional.
Num clássico decidido nos detalhes, a diferença pode ter estado precisamente aqui: não apenas na estratégia que o Sporting trouxe para o jogo, mas no momento certo de a abandonar. Neste ponto, Rui Borges falhou.
