Contra a corrente

Ribeiro Soares
Ribeiro Soares

Acidentes e agressões

Para além do que já foi dito e escrito sobre a queda desamparada de um adepto benfiquista, no Estádio Cidade de Coimbra, no decorrer do jogo particular Académica-Benfica no passado dia 13, entendemos que há lugar a uma reflexão mais profunda e num sentido diferente do que temos lido.

A justificar, aliás a nossa costumada posição "contra a corrente"…

 

No caso concreto, há que avaliar a situação nos seus diferentes aspectos. Já com o jogo a decorrer, alguns dissidentes da claque oficial da Académica "Mancha Negra" terão invadido o sector reservado aos adeptos do Benfica, provocando incidentes e fazendo com que algumas pessoas se refugiassem na pista.

A PSP interveio para repor a ordem e estava a encaminhar os invasores para o sector a que pertenciam, quando um adepto do Benfica (José Dinis) resolveu sentar-se no muro estreito que separa a bancada da pista e de costas para o relvado.

Com os ânimos ainda exaltados, ao passar pelo adepto que estava sentado no muro, um dos invasores (Nelson Mendes) empurrou-o, provocando-lhe a queda desamparada para a pista, de uma altura de cerca de metro e meio, que lhe provocou ferimentos graves. É de salientar que naquele local havia muitas pessoas, em movimento ou paradas, umas viradas para o terreno de jogo e outras de costas, mas apenas o José estava encavalitado no muro.

 

Sem pretender desculpar o Nelson das responsabilidades que lhe forem imputadas, não se pode ignorar que o José estava displicentemente sentado num muro estreito, de costas para o precipício, uma situação muito perigosa; que o Nelson tinha acabado de intervir em cenas de violência, estando no grupo que ia escoltado pela PSP; sendo de admitir que a atitude do Nelson possa ter sido resposta a uma eventual provocação do José, por gestos ou palavras; e o empurrão, feito com apenas uma mão não seria, normalmente, mais do que um incidente sem consequências, não fora a imprudência do José ao colocar-se em posição tão perigosa e o responsabiliza, em grande parte, pelo que lhe aconteceu.

 

Segundo a imprensa, Nelson Mendes tem 37 anos, é trabalhador por conta de outrem e tem família constituída, com um filho de poucos meses; não tem antecedentes criminais e já se apresentou à PSP, tendo sido constituído arguido com termo de identidade e residência.

José Dinis sofreu fractura de uma vértebra dorsal (D12) e foi internado no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, aguardando decisão médica sobre possível intervenção cirúrgica.

 

Será curioso analisar a posição institucional do Benfica, de estrénua protecção do seu adepto, acompanhada pelos costumados defensores do politicamente correcto; e sem uma palavra para o infractor que deve estar a ser o primeiro e maior arrependido do seu gesto, certamente feito sem intenção de provocar tão graves danos.

 

Diferente tem sido a postura dos dirigentes benfiquistas nas situações em que os agressores vestem de vermelho, como foi o caso do "very light" numa final da Taça de Portugal, no Jamor, que provocou um morto na claque leonina; e do atropelamento, próximo do Estádio da Luz, de um italiano também adepto sportinguista, abalroado deliberadamente por um membro das claques adversárias. Num caso e noutro as agressões assumiram inusitada violência, porque feitas com projéctil incendiário e viatura em movimento, havendo deliberada intenção de provocar danos em pessoas que não se tinham colocado em posições de perigo, mas acabaram mortas.

 

Reassumimos que não ilibamos completamente de culpas o agressor do estádio do Calhabé e lamentamos o sucedido ao adepto benfiquista, a quem desejamos rápida e completa recuperação. Mas, no meio de tantos atropelos, desacatos e violências, há que relativisar o sucedido e as suas consequências, e assumir a existência de  responsabilidades repartidas.

 

*Antigo colaborador de Record (1991/97) e último Director da Gazeta dos Desportos (1995); escreve segundo a antiga ortografia

 

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