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Portugal sagrou-se campeão da Europa de Futebol pela primeira vez na sua história. É um feito que jamais será esquecido.
Foi um momento que uniu os portugueses: fê-los vibrar, abrir sorrisos, chorar lágrimas de felicidade. O futebol tem este poder incomparável de mobilizar as pessoas num sentimento quase único, agregando-as em redor de sinais, convenções, sentimentos, tudo à volta de uma bandeira. No caso particular de um título conquistado em França, perante a França, país que alberga uma comunidade muito significativa de emigrantes portugueses, de gerações distintas, a dimensão dessa conquista alcança outros patamares. Gera uma superioridade emocional que é uma aspirina de média duração para combater outro tipo de (confessados) desforços.
As imagens que ficam são as do golo do Éder, aqueles minutos infindáveis do Cristiano Ronaldo, nos instantes finais, a fazer de Fernando Santos, depois de ter saído em lágrimas do campo por lesão (outra imagem forte), a entrega da taça, esta a passear nas mãos dos jogadores, a recepção em Lisboa e, muito particularmente, as muitas imagens de doação e gratidão protagonizadas pelos emigrantes portugueses, um pouco por todo o lado, mas principalmente em Marcoussis e Paris. Inesquecível! Talvez tenha sido a única campanha em que não se sentiu uma espécie de soberba e de superioridade moral que costuma tomar conta dos nossos responsáveis nestes momentos — e essa percepção ficou bem à FPF.
No último artigo que escrevi nestas colunas de Record, disse que os méritos a Portugal só deveriam ser creditados em caso de vitória, na final. Até lá, a campanha não tinha projectado nada de verdadeiramente elogiável. Sobressaía a organização e a solidez defensivas (excepto no jogo com a Hungria) e um calculismo com o qual nos demos sempre bem. Uma estratégia que deu resultados mas que implicou uma quase total demissão no plano da manobra ofensiva. Vencer a França em França aumentou o mérito que deve ser creditado, sem reservas, à Selecção. Principalmente a Fernando Santos, que desenhou a estratégia e a colocou em prática, do primeiro ao último minuto, mas com uma grande flexibilidade relativamente às opções para a equipa. Fez as alterações que se impunham e o colectivo cresceu com elas.
Isso não impede, contudo, que na explicação do êxito de Portugal não entrem outros factores, todos conjugados a nosso favor, entre os quais aquele que tenho apontado como muito relevante e que dificilmente se repetirá noutras edições: não defrontar nenhuma das selecções mais fortes, que se foram eliminando nos confrontos directos entre elas. Não é costume, foi a primeira vez que aconteceu e isso temos de agradecer à nossa sorte e à… Islândia, que nos atirou para o lado mais fácil do calendário.
Agora que Portugal se sagrou campeão europeu não recuso abordar nem os méritos nem esqueço as críticas que fiz e mantenho. Fernando Santos aplicou a sua estratégia com êxito mas não deixa de ser, para mim, um treinador muito igual àqueles que jogam, no nosso campeonato, fechadinhos, em casa dos grandes, com medo, para tentarem não perder. E às vezes conseguem empatar e mesmo ganhar. Já tivemos um exemplo desses no Europeu. Exactamente a Grécia, no Euro-2004, entre nós. A Grécia bateu a França e a Rep. Checa, por 1-0, nos ‘quartos’ e nas ‘meias’, depois de ter ganho a Portugal, empatado com a Espanha e perdido com a Rússia (fase de grupos), voltando a ganhar a Portugal no jogo decisivo. E nunca ganhou por mais de um golo de diferença. Significa isto que há várias formas de chegar à vitória e aos títulos. Não é entusiasmante, mas tem momentos em que se torna eficaz. A Grécia chegou ao título depois de jogar duas vezes com Portugal, uma com a Espanha e outra com a França. Nós apanhámos a França ‘apenas’ na final. Dificilmente teremos uma conjuntura tão favorável quanto aquela que tivemos neste Europeu.
O papel da Crítica é exactamente esse: exibir os méritos e os deméritos, apresentar as conjunturas, fazer reflectir sobre elas, questionar caminhos, traçar cenários e eventualmente, até, soluções, mas a Crítica tem um lado objectivo e outro subjectivo e é, regra geral, epónima, ou seja, tem nome. Em Portugal, há pouca tolerância perante a Crítica, primeiro porque não há essa cultura e, depois, porque as pessoas acham que os críticos devem reflectir as suas ideias. Nada de mais errado. Um jornalista especializado na área opinião (perguntam-me: o que é isso?…), profissional, por ser português, não tem de defender incondicionalmente tudo o que diga respeito a Portugal, no futebol. Nem sequer de vestir a camisola, como muitos fazem. É muito difícil defender esta ideia mas não vou abdicar dela. E muito menos nas coisas que dizem respeito aos clubes…
BOAS FÉRIAS… e até Agosto! A próxima época promete…
JARDIM DAS ESTRELAS (5 estrelas)
Éder, herói!
Até ver o que André Silva vai dar, não temos um jogador de área de grande qualidade. Isso foi, aliás, reconhecido por Fernando Santos, que alimentou até ao dia da convocatória a dúvida se deveria, ou não, levar no lote dos 23 para o Europeu um ponta-de-lança mais clássico. Levou (Éder) e aceita-se que assim tenha acontecido, porque um jogador com essas características, mesmo que não encaixe no ‘modelo’ inicial de um treinador, pode ser útil. Como foi. Éder não precisou de ser um dos indiscutíveis de Fernando Santos para sair do Europeu como herói. Herói de Portugal. Um jogador que normalmente não é achado, à partida, para fazer a diferença… fez a diferença. É este um dos sortilégios do futebol. Quando menos se espera, o momento e a inspiração do momento contrariam todas as teses. Por isso, cheguei a dizer publicamente que, embora achasse improvável a sua utilização e nunca o desconsiderando tecnicamente (o ‘título’ de Ederbayor fui eu que lho coloquei…), não me admirava nada que, percebendo o que é o futebol, ele pudesse, na final, marcar o golo da vitória de Portugal.
O CACTO
A Selecção Nacional que vai representar Portugal nos Jogos Olímpicos é uma equipa constituída por jogadores profissionais e por um ‘staff’ de profissionais. Esses jogadores actuam em competições profissionais. Não são amadores. De resto, nos Jogos Olímpicos, o espírito de Coubertin é uma flor que se pode colocar numa jarra. Nada mais. Os jogadores têm de ser tratados como profissionais. A FIFA ignora-o como uma ligeireza medonha e as Federações assobiam para o ar, fazendo de conta que não é nada com elas. Uma incongruência total. Muito bem Rui Jorge a denunciar o logro.
Por Rui Santos