Ponto prévio: quem me conhece, sabe que não sou de elogios fáceis. Os meus elogios a Cristiano Ronaldo, no plano futebolístico, dizem respeito às suas inegáveis capacidades técnicas e a tudo o que fez, em termos de investimento pessoal e profissional, para alcançar o nível de excelência a que chegou.
Os méritos cabem-lhe todos: antes de se transformar numa ‘marca’ e num produto de ‘marketing’, Cristiano Ronaldo fez tudo - com talento e trabalho - para ser reconhecido como um dos melhores à escala planetária. Por isso, merece a minha admiração.
Esse mérito ninguém lho pode tirar, e isso nem sequer tem a ver com as comparações que sempre se querem fazer com Messi, outro predestinado de enorme categoria. São dois grandes talentos, mas tão diferentes nas suas características, que sempre me furtei a dizer que um é melhor do que o outro. Como acho ‘indecente’ comparar um jogador dos tempos modernos, com recurso a tudo e a mais alguma coisa, com um jogador como Eusébio, de um tempo em que ‘tudo’ era diferente, para pior, claro…
Cristiano Ronaldo é um desportista completo (viu-se no Manchester e vê-se, agora, no Real Madrid), um caso de gosto pela superação, de trabalho individual antes do trabalho colectivo, porque gosta muito de si próprio, o que não é defeito e pode ser, até, uma virtude… Cristiano ‘puxou’ por Ronaldo e Ronaldo ‘puxou’ por Cristiano, almas gémeas com o objectivo comum de chegar a um ponto de ‘perfeição’, entre a estética e o rendimento, e há momentos em que as críticas sobem quando a estética ‘vence’ o rendimento… Aí, surgem as críticas (islandesas, suecas, alemãs, etc.) e CR só pode responder com (mais) rendimento e não com (mais) estética, para não dar razão a quem pensa que, na Selecção, ele passa mais tempo a olhar para os ecrãs gigantes do que em concentrar-se na equipa e no jogo…
Tudo o que Cristiano Ronaldo fez por si próprio reflecte-se em ganho para o futebol português, o mesmo acontecendo com algumas situações menos positivas que possa protagonizar. É assim com todas as grandes figuras - e CR é uma das grandes figuras do palco mediático mundial.
Acresce que CR torna-se hoje no jogador português mais internacional de sempre (destronando Figo) e há muito que se tornou num poder dentro da Selecção Nacional. Um poder que lhe permite, por exemplo, estabelecer parcerias comerciais com a FPF dentro do ambiente da maior (e mais escandalosa) normalidade e um poder que lhe permite usufruir, no espaço da Selecção, de condições únicas comparativamente aos seus companheiros.
Isso aumenta-lhe a responsabilidade. Longe vão os tempos em que, no Euro 2004, era uma estrela em ascensão. Durante estes 12 anos, trabalhou muito, conquistou tudo, nos clubes, o que havia para conquistar, e sempre prometeu mais e contrariar um certo aburguesamento, decorrente do ‘estatuto’ que foi justificando. Conquistou a braçadeira de ‘capitão’, contra a vontade e as críticas de algumas figuras que, na altura, lhe disputavam o protagonismo, defendeu e despachou seleccionadores, protegeu e deixou cair colegas; em síntese, aumentou o seu magistério de influência e é hoje, mais do que um mero ‘capitão’ e um jogador nuclear (como o são, neste Europeu, por exemplo, Ibrahimovic, na Suécia ou Bale, no País de Gales), um verdadeiro poder. Um poder em cima do poder de Jorge Mendes e da Gestifute só pode ser um mega poder.
Esse ‘estatuto’ encerra coisas boas e outras menos boas. CR já não é um menino, viveu muitas coisas e entrou no ciclo final da sua maturidade futebolística. O empenhamento total que colocou na competição, durante anos, sempre no máximo, deixou-o mais susceptível física e clinicamente e, por mais que se afirme o desejo de uma carreira longa, CR já não é aquele jogador explosivo que foi não há muito tempo, e isso é compreensível…
Na Selecção, CR deveria aproveitar o ‘estatuto’, que conquistou com suor e méritos vários, para utilizar a sua influência de uma forma mais positiva. Junto dos colegas, dos mais novos principalmente, junto dos adeptos, junto dos adversários. CR é de tal modo um poder que Quaresma, só numa fase de aproximação ao ‘capitão’, começou a ver uma luz a acender-se na Selecção Nacional. Um poder que qualquer seleccionador tem de gerir com paciência e muitas cautelas, porque é preciso ter CR disponível, mas sem perda de autoridade e liderança. Não é preciso estar sempre a repetir, dentro do espaço da FPF/Selecção, que ‘Cristiano Ronaldo é o melhor do Mundo’. Soa a ‘password’ para entrar no ‘clube’ de CR e soa a bajulação.
É preciso que todos façam o seu papel para que o espaço da Selecção Nacional seja respeitado pelos portugueses. Neste momento, há algumas ‘concessões’ que não fazem sentido. Se for preciso massajar mais o ego de CR, alguma coisa estará errada. De um lado ou de ambos.
JARDIM DAS ESTRELAS (3) - Portugal - muito parra...
A estreia de Portugal no ‘Euro’ foi uma decepção. Esperava-se muito mais. Um empate no jogo inaugural nunca é comprometedor, sobretudo quando os quatro melhores terceiros classificados são apurados, mas ficou o mau sabor de uma segunda parte sem chama. Quando Rui Patrício é a melhor unidade lusa, num jogo com a Islândia, está tudo dito. É preciso muito mais Cristiano Ronaldo e a estreia provou que Moutinho não está em condições de ser o ‘motor’ que Portugal necessita. Renato Sanches pode não corresponder ainda ao perfil de ‘patrão’ (isso é indiscutível) mas tem uma rotação que Moutinho, neste momento, não tem. Há oito dias dizia aqui, nesta página, quais seriam as 11 opções de Fernando Santos e não me enganei. Mais: disse que Moutinho não se apresentava em condições e que isso poderia prejudicar a Selecção. Confirmou-se: o médio do Mónaco foi o mais fraco elemento, entre os portugueses. Esperemos que, hoje, Fernando Santos opte mesmo pelos melhores. Parece-me que Nani, CR e Quaresma têm de caber no ‘onze’.
O CACTO - 80 Milhões de bagos de arroz?
O presidente do Sporting voltou a surpreender com mais uma declaração-de-choque, quando afirmou que recusou uma oferta (chinesa) de "80 milhões" em Janeiro por um jogador ‘leonino’.
A pergunta é: se ‘não podem’ ser 80M de euros; se 80M de yuans correspondem a 10M€ e, por isso, não se deveriam considerar como uma oferta relevante, Bruno de Carvalho estaria a referir-se a quê?… A 80 milhões de bagos de arroz? A 80 milhões de canas de bambu?
Se fosse para levar a sério, teríamos aqui um ‘caso’. E que ‘caso’!
Por Rui Santos