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Rui Santos
Rui Santos

Já chega, Portugal … Podem começar a jogar?

Estamos nas meias-finais do Euro’2016, já provámos – agora e no passado – que chegar ao lote das quatro equipas mais bem-sucedidas desta competição está ao alcance das nossas possibilidades. E fizemo-lo em tempos diferentes, com jogadores diferentes, treinadores diferentes e contextos diferentes. Nada do que aconteceu neste Campeonato da Europa deve ser considerado um êxito, bem pelo contrário, porque não me lembro de em nenhum momento a conjuntura ser tão favorável e isso deveria fazer conter alguns entusiasmos que já se veem por aí. Com todo o respeito pelos nossos adversários, a Croácia e a Polónia são boas equipas mas não são testes a sério. Por força do calendário, fomos evitando os adversários mais fortes e, se lá chegarmos, como passou a ser bem provável a partir do momento em que eliminámos os croatas, só nos cruzaremos com um ‘tubarão’ (se a máscula Islândia estiver pelos ajustes e não nos reservar mais uma surpresa) na final, em Saint-Denis.

Como já referi várias vezes no espaço público, nomeadamente nestas colunas de Record, ao alargar-se a fase final do Europeu a mais equipas, a UEFA não fez mais senão promover o futebol defensivo, calculista, rigoroso, sem risco nem espectáculo. A UEFA, na sua ânsia de ‘democratização’, quis fazer chegar o jogo e a televisão a mais países, que é uma tentativa entendível de reforçar o negócio, para além das implicações que isso pode ter nos momentos eleitorais, mas desprezou o efeito que esse alargamento iria produzir sobre o relvado, e isso não é ajudar o futebol; é combatê-lo no que ele tem de mais nobre: a aliança da competência técnico-táctica com a espectaculosidade do jogo.

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Este Europeu, como também já referi, tem um bocadinho de ‘Liga portuguesa’ ou de ‘II Divisão’, se quiserem dourar mais ou menos a pílula, porque o que temos visto são as equipas mais preocupadas em NÃO DEIXAR jogar futebol do que propriamente em jogar futebol. São poucas a tomar a iniciativa e a partir para a busca do golo, não apenas porque, na fase de grupos, o apuramento era acessível a dois terços das equipas (16 em 24) mas também porque, no cruzamento dos calendários, as mais fortes ficaram todas de um lado e as menos fortes do outro. É fácil de perceber que, se a Itália passar a Alemanha, depois de ter passado a bicampeã europeia Espanha, independentemente do que vier a acontecer na final, se lá chegar, nunca se poderia comparar os méritos dos italianos com os do outro finalista, seja ele qual for.

Parece que, no futebol, se instalou agora a ideia de que a ‘fórmula do êxito’ passa apenas por duas opções: ou jogando a pensar em atacar ou a pensar em defender, como se não fosse possível – em defesa do que o futebol tem de melhor – combinar os dois processos e ser competente nos dois momentos. Pode haver, naturalmente, sensibilidades diferentes ou meras divergências de opinião mas, para mim, as grandes equipas são e serão sempre aquelas que envolverem todos os jogadores no processo defensivo e ofensivo. Quando não for assim, ou é porque o treinador não se revela suficientemente bom ou porque as equipas têm tantas limitações que não é possível obter ‘o melhor dos dois mundos’.

Tenho noção de que o envolvimento dos jogadores em todo o processo colectivo não se trata de uma tarefa fácil, mas é neste particular que os treinadores se diferenciam. Há os que conseguem, passando por cima dos egos e de outras situações; e há – a maioria – os que ficam a meio da ponte. É muito mais fácil ‘armar’ uma equipa para ir defender ao Estádio da Luz, a Alvalade ou ao Dragão do que ir àqueles Estádios para jogar ‘olhos no olhos’. A confissão das debilidade às vezes resulta em êxito. É uma ‘lei’ antiga. Entendo esse realismo para as equipas menos dotadas. Não entendo em equipas que têm Cristiano Ronaldo, Nani, Quaresma, Renato Sanches (teria sido lançado a titular com André Gomes ‘apto’?!) e João Mário. Podemos fazer muito mais ofensivamente. Porque, defensivamente, estamos a fazer aquilo que a maioria das equipas fazem: fechar (quase) todos os espaços.

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Apetece, pois, dizer à Selecção Nacional que os portugueses ficarão agradecidos se ela conseguir chegar à final e se tiver a capacidade de, chegando lá, conquistar o título. No futebol, não há nada mais gratificante do que um título europeu ou mundial. No entanto, considerando o contexto e tudo o que a Selecção (não) fez, apetece dizer-lhe, igualmente: não querem deixar uma imagem impressiva à ‘Europa do Futebol’? Não há aqui nenhum sentimento de menor reconhecimento ao que já foi alcançado. Não é por acaso que a crítica internacional não tem sido generosa para Portugal. O futebol, de facto, não encanta. Essa generosidade foi transportada para a Islândia, que eliminou a Inglaterra, à custa de muito suor mas também com muita vontade de fazer golos aos adversários. Mas comparar a Islândia a Portugal é uma heresia.

Essa imagem impressiva deveríamos ter deixado na fase de grupos, perante adversários inferiores. Não corremos riscos e a coisa correu bem. Agora, depois das ‘tangentes’ perante a Croácia e a Polónia, já é tarde para despertar para o ‘grande futebol’. E… ou somos campeões ou vamos ficar lembrados como uma ‘equipa pequena’ que passou pelo Campeonato da Europa. Portanto, rapazes, a partir de agora é… ganhar ou ganhar. Ou ficam na história ou passam ao lado dela. Agora, a surpresa é se não formos à final.

Por Rui Santos
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