1. Agora que a sociedade se mostra cada vez mais repressiva e orientada por tiques ditatoriais expressos das mais variadas formas; neste mundo autoritário que despreza o diálogo, reprime a diferença e combate os espíritos livres, o futebol agarrou-se a conceitos indignos do seu passado. Rendeu-se ao negócio, valorizando a componente financeira muito para lá do que seria legítimo e prosseguiu com o estímulo a sacrifício, esforço, luta e demais embustes, coisas menores apresentadas como bens de primeira necessidade. Atingido o caos emocional, porque a paixão antecipa a urgência e a ansiedade autoriza o despudor, o primeiro instinto é correr e chocar durante hora e meia, quebrando elos de ligação com a sensibilidade do espectador.
2. Sobram os resistentes à tresloucada lei do músculo e da brutalidade, os futebolistas a sério que, fiéis à simplicidade do jogo e à grandeza do fenómeno, preferem seguir princípios e orientar-se pela capacidade de raciocínio. Hélder Postiga é um desses talentos cada vez mais raros. Mesmo que já tenha encontrado motivos para seguir o rebanho, optou por uma rota diferente. Ao contrário daqueles que continuam a correr mesmo quando se enganam no caminho, ele sabe que, ao chegar a becos, o mais inteligente é voltar para trás e procurar o destino por outra via. Mesmo que esteja desfasado da realidade, como naquele instante em que, num assomo de loucura controlada, por pouco não levou ao enfarte dez milhões de corações alterados com o "penalty" marcado à Inglaterra no Euro'2004.
3. Em Barcelos, assente na eterna indolência, na estética preguiçosa e na imagem enigmática de quem prescinde da agressividade para entender o que se passa à volta, Postiga jogou como se estivesse no meio de uma época brilhante. Só um jogador especial pode desperdiçar um golo como aquele em que se propôs entrar com a bola pela baliza dentro e no qual foi travado pelo guarda-redes; no momento de voltar aos golos, após sete meses de jejum, só um avançado diferente reage à festa sem euforia e corre devagar para agradecer a Boa Morte. É essa atitude de saudável inconsciência perante o meio em que está inserido que lhe confere a imponência de quem tem uma ideia e sabe interpretar o jogo. Esperemos só que sobreviva à invasão estrangeira, ao negócio selvagem e aos instintos primários do "sangue, suor e lágrimas".
4. Neste futebol intolerante com quem não cumpre os requisitos considerados obrigatórios para triunfar na vida (ainda e sempre a falácia de esforço, garra, luta, choque…), Postiga não aceita ser intimidado pelo jogo, muito menos ter medo da bola ou fazer com que a desinspiração lhe belisque as convicções. Ao fim de dois anos na fronteira entre sonho e desilusão; entre esperança e arrependimento; entre vitória e fracasso, vive sob clima de alta tensão, ao qual tem resistido com talento, coragem e, como já vimos, alguma irresponsabilidade. Não podendo ganhar sozinho a batalha contra a mediocridade, das duas uma: vê alimentar a dúvida que o mata aos poucos ou recebe as provas de confiança e afecto que lhe permitirão cumprir o destino como um dos melhores jogadores da sua geração.
Flanco direito
Um bom tema de conversa. Lembram-se quando inventaram os "trincos" com o pressuposto de que eram centrais que actuavam dez metros à frente? Depois não tinham agilidade para jogar, nem habilidade para tratar a bola ou técnica para resolver em espaços curtos e lançar à distância. João Moutinho cumpre a nova tendência de jogar recuado vindo de terrenos ofensivos, de onde trouxe todas as ferramentas de que precisa. Ora aí está um bom tema de conversa.
Andaram mesmo a brincar connosco. Nuno Gomes confirmou a existência de particulares falseados no seu rigor competitivo pelo desleixo dos jogadores – só não especificou quem mandou, quem fez e quando é que isso foi. Aquilo que sempre entendi como sendo conversa de inimigos do futebol, transformou-se em verdade cruel: andaram mesmo a brincar com os sentimentos mais puros dos adeptos. Não sei se merecem o nosso perdão.
O milagre da simplificação. Em Israel, José Mourinho confirmou ser uma das maiores referências ideológicas do futebol mundial. E, entre sorrisos, ainda cometeu o milagre da simplificação, essa característica só ao alcance dos mestres. Respondendo a uma pergunta, afirmou que, se a equipa dele fosse treinada com intervenção dos dirigentes, estaria na cauda da tabela; mas que se tivesse, ele próprio, alguma interferência na gestão do clube, o Chelsea estaria falido. Sigamos o exemplo: o melhor é cada um fazer o que sabe. Sem atropelos.
Alterar a lei do fora-de-jogo
Por decisão da International Board, o futebol vai testar nova regulamentação referente à sua lei mais específica. Que é para estimular o jogo de ataque? Numa primeira análise, cheira a demagogia. Ao ver a entrada do brasileiro Juan sobre o peruano Cominges, para o Mundial de 2006, percebemos que há coisas mais importantes para resolver: uma agressão pura, que inutilizou o atacante, não mereceu da justiça arbitral um simples cartão amarelo. Uma decisão revoltante. Eu, se fosse árbitro e a lei me permitisse, chamava a polícia para tomar conta da ocorrência.
