Escrevo a partir de Angola. Escrevo como africano. E escrevo como alguém que se recusa a aceitar que, em pleno século XXI, o presidente de um grande clube português utilize “África” como metáfora depreciativa num debate futebolístico.
As declarações de Frederico Varandas, presidente do Sporting Clube de Portugal, a propósito de acontecimentos no jogo frente ao FC Porto, ultrapassam largamente os limites da rivalidade desportiva. Ao afirmar que determinado comportamento “só se vê em África”, atacou um adversário e optou por atingir um continente inteiro.
África não é figura de retórica. Não é recurso estilístico para dramatizar conflitos. Não é sinónimo de desorganização ou desordem. África é o berço da humanidade. É um continente plural, diverso, dinâmico, que contribui activamente para o mundo, inclusive para o futebol português.
Se o presidente do Sporting está habituado a utilizar linguagem agressiva para qualificar adversários, se entende que o ruído, a suspeição permanente ou a insinuação fazem parte da sua estratégia comunicacional, essa é uma opção que dirá respeito ao espaço interno do futebol português. Se prefere um estilo de confronto constante, que continue nesse registo. Mas não tem o direito de arrastar para esse plano um continente inteiro e milhões de pessoas que nada têm a ver com querelas clubísticas.
O futebol português pode ter os seus vícios, as suas polémicas e as suas guerras de bastidores. África não é metáfora para isso. Em muitos países africanos, o desporto é instrumento de coesão social, de superação colectiva, de mobilidade e de esperança. Não é sinónimo de desorganização. Não é símbolo de caos. É, muitas vezes, exemplo de resiliência e dignidade.
Utilizar “África” como comparação depreciativa revela pobreza argumentativa. Quando faltam argumentos sólidos, recorre-se a imagens fáceis. Quando escasseia elevação institucional, procura-se impacto mediático. Mas liderança não é isso. Liderança é responsabilidade. É consciência histórica. É respeito.
Um presidente de clube fala para além das quatro linhas. Representa uma instituição histórica e influencia o espaço público. Quando escolhe palavras que diminuem povos inteiros, falha nessa missão.
Aproveito para lembrar ao senhor doutor que, jogadores africanos são, há décadas, protagonistas de conquistas nos maiores palcos do futebol mundial. São decisivos em campeonatos europeus, em competições internacionais e em campanhas que ficam gravadas na memória colectiva dos adeptos.
O próprio Sporting Clube de Portugal construiu momentos relevantes da sua história recente com contributos determinantes de atletas oriundos do continente africano ou da sua diáspora. Ignorar esse facto ou, pior ainda, recorrer a “África” como metáfora depreciativa num desabafo circunstancial é uma infelicidade retórica e sinal de uma ignorância inaceitável e de uma alarmante falta de consciência histórica.
Quem lidera um clube com esta projecção não pode cuspir no solo de onde vieram muitos dos talentos que ajudam a engrandecê-lo.
África não é insulto. África não é caricatura. África não é recurso retórico para amplificar irritações momentâneas.
África é dignidade. E exige respeito.