Portugal não é -- diz o primeiro-ministro -- uma república das bananas. Nem o Estádio da Luz é -- digo eu -- um circo romano. Não se compreende, por isso mesmo, que o presidente do Sport Lisboa e Benfica se comporte como um caudilho sul-americano. Nem que os futebolistas do clube sejam lançados às feras por causa da copiosa derrota em Vigo.
Num país livre e democrático, nenhum cidadão pode ser constrangido a autoflagelar-se em público nem a submeter-se à ira e aos insultos de uma turbamulta enraivecida, só porque um dia de trabalho lhe correu pessimamente e não logrou obter o êxito que outros esperavam dele. No desporto de alta competição, tal como em outras actividades profissionais, quem sofre uma derrota ocasional, por mais pesada que ela seja, não tem de abdicar da sua dignidade pessoal nem deve sujeitar-se a lamentáveis actos de humilhação pública.
O doutor Vale e Azevedo tem uma estranha concepção da sua legitimidade democrática como presidente do Benfica. Dirige o clube como um caudilho, manipula as assembleias como um demagogo, trata os jogadores como um capataz e arenga aos sócios e adeptos, como um “ayatolah”. Em vez de apelar à união de esforços dentro do clube para combater a crise, prefere intimidar e pôr à margem os seus opositores. Em vez de explicar com clareza e serenidade os problemas e as dificuldades do clube, prefere a confusão e o alarido. A imensa popularidade do clube é, para ele, uma arma de arremesso e não um factor de confiança. Em vez de promover o “fair play” e o civismo, prefere incitar ao ódio e ao fanatismo.
Para o doutor Vale e Azevedo, a culpa é sempre dos outros -- sejam eles os presidentes do FC Porto ou do Sporting, os antigos presidentes do Benfica, os seus colegas de Direcção, os outros candidatos que ele derrotou, os directores e treinadores que ele próprio escolheu mas que afinal não prestam e, evidentemente, os jogadores, sempre que a equipa perde. A culpa nunca é dele. E a coisa chegou ao cúmulo com a atitude insensata e pusilânime que o doutor Vale e Azevedo assumiu em Vigo, descartando-se de quaisquer responsabilidades e atirando os jogadores às feras, ou seja, aos vergonhosos insultos dos fanáticos. Mais do que o Celta de Vigo, foi ele quem lançou a ignomínia sobre os jogadores do Benfica.
No futebol, tal como na política e na religião, não há nada pior do que os fanáticos. Como escreveu Eduardo Galeano, no seu magnífico livro sobre “El Futbol a Sol y Sombra”, “o fanático é o adepto no manicómio”, que tem “a mania de negar a evidência” e “põe a pique a razão”, sempre alimentado por uma “fúria sem tréguas” que o conduz ao “naufrágio”. O fanático “nunca vem só”, anda em bandos. É o humilhado que, por uma vez, se sente capaz de humilhar outros, o medroso que consegue meter medo a outros. “A omnipotência do domingo conjura a vida obediente do resto da semana, a cama sem desejo, o emprego sem vocação ou nenhum emprego: liberto por um dia, o fanático tem muito que vingar”. Por isso mesmo é que é tão lamentável e perigoso andar a incitar ao fanatismo no futebol.
A humilhação infligida aos jogadores do Benfica logo à saída do Estádio de Balaídos, à chegada ao aeroporto de Lisboa e durante o treino que efectuaram no dia seguinte, num Estádio da Luz transformado em arena, sob os insultos da turbamulta ululante, é uma página negra da história do Benfica, da história do futebol e da história do desporto em Portugal. A imagem de João Pinto a autoflagelar-se em público, em nome de si próprio, dos seus colegas e das respectivas famílias, além de patética e deprimente, ultrapassou tudo quanto era possível imaginar acerca de um clube em que os futebolistas passaram a ser tratados como “meninos ricos e mimados” e são acusados de andarem “a brincar”. Foi uma vergonha!
Ainda há poucas semanas o Manchester United, uma das melhores equipas do mundo, foi goleado pelo Chelsea (5-0). E a Lazio, uma das equipas mais caras do mundo, foi goleada pela Roma (4-0). Qualquer delas é bem melhor em termos futebolísticos e mais cara em termos financeiros do que a actual equipa da Luz. E as diferenças entre elas são bem menores do que entre Benfica e Celta de Vigo. Mas não consta que os jogadores do Manchester e da Lazio tenham sido alvo da humilhação pública a que a Direcção do Benfica sujeitou os seus jogadores. O doutor Vale e Azevedo e os seus comparsas pisaram o risco, ultrapassaram as marcas. E é preciso que isto seja dito para que a vergonha não se repita!