ANTÓNIO TADEIA: Evolução na continuidade, um truque a assimilar

Politicamente, os dirigentes do FC Porto têm todo o interesse em explorar a subida de produção da equipa nas últimas jornadas da I Liga. Contudo, antes de confrontarem seja quem for com a nova realidade da equipa, antes de verem no actual rendimento a prova de que não tinham razão aqueles que mostraram pessimismo nos primeiros tempos da época, devem olhar para a própria equipa. E ver o percurso feito por Fernando Santos até chegar ao colectivo oleado que venceu em Alvalade. Cada vez mais parecido com o da época passada.

No primeiro jogo do campeonato, Fernando Santos utilizou quatro jogadores da equipa-tipo de 99/2000 no onze titular: Jorge Costa, Chainho, Capucho e Drulovic. À segunda ronda, o número subiu para cinco, com a saída - infeliz, por sinal - de Chainho a ser mais que compensada pelas entradas de Esquerdinha e Paulinho.

Mais uma jornada, mais um passo de encontro ao onze rotinado de há um ano: à terceira jornada, Jorge Costa, Aloísio, Paulinho, Deco, Capucho e Drulovic faziam a ponte com a equipa do campeonato anterior e elevavam para seis o número de titulares a assegurar a transição.

Desde então, o treinador estabilizou e, com uma única troca entre os jogos em casa e fora (Capucho, nas Antas, Cândido, nas deslocações) utilizou sempre o mesmo onze. E o número de titulares do ano passado voltou a subir para oito nos desafios em casa e sete nos disputados fora. Resultados: cinco vitórias, doze golos marcados e um sofrido.

Se a alternância entre Capucho e Cândido é uma opção técnica, que tanto pode ficar a dever-se à maior capacidade defensiva e de contra-ataque do jovem ex-Salgueiros como à sobrecarga de jogos a que Capucho foi sujeito em 99/00, as trocas de Baía por Ovchinnikov e de Jardel por Pena são inevitáveis: o ex-titular das redes ainda não está em condições para jogar e o goleador das últimas épocas foi vendido ao Galatasaray.

A outra troca, a de Paulinho por Paredes, deixa a equipa a ganhar, uma vez que o paraguaio também cumpre defensivamente - e com uma limpeza superior - e acrescenta algo ao colectivo quando recupera a bola, nomeadamente no risco de passe.

A maior lição a tirar do crescimento do FC Porto tem a ver com os benefícios da continuidade. Embora também tenha começado por pensar que a galinha do vizinho era mais gorda que a dele, afinal Fernando Santos acabou por se deixar convencer pelos méritos e pelas rotinas da equipa que tão bem conhecia.

Apesar de ter sido segundo classificado na última Liga, emendou a mão desejosa de mudança no sentido de um “back to basics” de que ainda não foi capaz, por exemplo, o campeão nacional.

Embora tivessem razão os que criticaram o início tímido dos portistas, a equipa já está na frente da tabela. E, embora também tivessem razão aqueles que adivinhavam uma época prometedora ao Sporting, a equipa está a afundar-se numa série de contradições que Inácio necessita de emendar para entrar na luta mais desejada.

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A tarde da miséria nacional, bem reflectida no pobre espectáculo oferecido no pôr do Sol de Alvalade, acabou em redenção na noite diluviana do Camp Nou. O facto do superclássico espanhol, Barcelona contra Real Madrid, Catalunha contra Castela, se ter centrado na figura de um artista português já tinha feito algo pelo orgulho lusitano.

Apesar dos insultos, que se adivinhavam e que levaram o escritor catalão Manuel Vázquez Montalbán, “culé” do fundo do coração, a dizer que “se Figo saísse vencedor do Camp Nou havia que pedir-lhe o nome do seu psicólogo”.

Não saiu, mas contribuiu para nos deixar a todos de bem com a nossa alma de Viriato. Pela forma como se bateu e sobretudo porque, ante a vaia do século, o que se viu foi o seu lado puro: Figo raramente sorri, mas a sua face paradoxal de cavador sofisticado iluminou-se num meio sorriso quando simulou que tapava os ouvidos ao entrar no relvado.

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Não era vergonha, pois Figo não tinha que se envergonhar. Não colhem, assim, nem para o bem nem para o mal, as comparações com Di Stefano.

Dizia Del Bosque que, tal como sucedera com o “Flecha Loura”, nunca vira Figo jogar mal. Mas no sábado não se saiu muito bem. Respondia Vázquez Montalbán que, ao contrário da deserção de Di Stefano, devida a “conjuras parafascistas”, a de Figo justificava-se com as leis do mercado.

“Porque só se vive uma vez e há que aprender a querer e a viver”, concluía com desdém. Há que recuar até Joe E. Lewis, um humorista que já foi interpretado por Sinatra no cinema: “Só se vive uma vez, mas se a trabalharmos bem, uma vez é suficiente.”

Aqui chegados, todos são forçados a concluir que Figo a trabalha como poucos. Só por isso não se lhe fica indiferente e se compreende a forma como os catalães sentiram a sua saída.

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Por tudo isto, sem que me mova algo a favor ou contra qualquer das equipas, sentei-me a torcer pelo Real Madrid. Ergui-me com esperança quando Figo fugiu a Puyol e Cocu e arrancou para a área, apenas para ver o seu remate desviado por Abelardo, pelo mesmo Abelardo que no final do jogo o beijou.

Traição? Claro que não: profissionalismo na primeira situação, companheirismo na segunda. Estava nisto até que a figura injustamente esquecida de Simão surgiu, saltitante e leve, correndo quase sem pisar a relva, para fazer o golo que definiu o jogo. E o sorriso inteiro de Simão fez-me sentir catalão.

Porque além de haver algo de português na derrota do Real, também havia algo de português no sucesso do Barcelona. E porque, tal como os catalães em toda a sua história, desde Luís XIII, eu tinha escolhido os aliados errados.

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OS NÚMEROS DE PENA (FC PORTO)

8 - O número de golos marcados por Pena nos seis jogos que fez pelo FC Porto na I Liga e que, apesar do atraso com que chegou a Portugal (só começou a jogar à terceira jornada), já o convertem num dos melhores marcadores da prova. Dos oito golos, apenas um, o primeiro ao Campomaiorense, foi apontado de cabeça. Os restantes sete dividem-se entre o pé direito (cinco) e o esquerdo (dois). Todos foram concretizados dentro da área e metade deles até surgiu na pequena área.

6 - O total de jogos consecutivos que Pena leva a marcar golos. É um número impressionante, mas não inédito. Jardel, o antecessor de Pena no centro do ataque da equipa portista, chegou uma vez a estar nove jogos seguidos sempre a fazer golos: sucedeu entre a nona e a décima sétima rondas do último campeonato. Nesses nove jogos, Jardel apontou 18 golos.

1 - Só por uma vez Pena marcou no campeonato brasileiro, onde também nunca teve muitas oportunidades de jogar. O goleador do FC Porto andou sempre por clubes modestos, desde o Ceará ao Rio Branco, e só no Palmeiras actuou na primeira divisão. Foi em 1999 e, em seis jogos, os mesmos que leva com as cores do FC Porto, Pena celebrou apenas um golo.

10 - Foram os golos marcados por Pena nas duas derradeiras edições do Campeonato Paulista. Em 1999, pelo Rio Branco, o artilheiro portista marcou sete golos em 24 jogos, o que lhe valeu a transferência para o Palmeiras. No Paulistão deste ano, que foi a última competição que disputou no Brasil, Pena marcou mais três golos.

0 - Os jogos que tinha feito na Europa até chegar ao FC Porto. Pena já tinha emigrado antes, quando trocou o Ceará pela Suíça, mas a sua experiência no Grasshopper não foi nada positiva: não chegou a jogar uma única vez para o campeonato e, por isso, não marcou golos.

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