Não consigo evitar sorrir sempre que ouço ou leio alguém preocupado com o “boom” das casas de apostas na internet. De repente, entre os inúmeros temas polémicos no desporto internacional (e em tantas outras áreas da sociedade), parece que nos querem fazer crer que o único problema grave reside no facto de termos a opção de gastar algum do nosso dinheiro em apostas. É curioso, de facto, observar o aumento considerável do número de pessoas com responsabilidades várias que consideram isso uma séria ameaça. Só gostava de entender é por que razão esse eventual perigo só se coloca em relação às várias empresas que operam via net, com destaque para as apostas feitas em torno do desporto, nomeadamente no futebol.
Se é o medo de uma adesão maciça de incautos cidadãos aos jogos de sorte e azar que preocupa determinadas mentes mais puritanas, então aconselho-as a barafustar também com a existência de casinos e salas de bingo. A menos que eu esteja enganado, nesses locais também circula muito dinheiro e é fácil encontrar quem tenha relatos de experiências traumáticas na área para contar. Curiosamente, ainda recentemente abriu um casino em Lisboa e não me recordo de assistir a marchas de protesto. Bem pelo contrário. A ideia foi aplaudida por muita gente que, de enfiada, enumerou uma série de vantagens associadas à criação do espaço.
Também não vejo ninguém disponibilizar-se para combater as lotarias tradicionais, as mais recentes “raspadinhas” ou os lotos em versão nacional ou europeia. Devo andar distraído. Se calhar basta jogar para ganhar dinheiro. Querem ver que isto anda repleto de novos excêntricos e eu não sei de nada!
Mas o maior “bicho de sete cabeças”, segundo os alarmistas espalhados por aí, prende-se com a possibilidade das apostas em torno das competições desportivas poderem originar viciação de resultados. Em teoria, esse perigo existe, mas tal também já era válido quando só se conhecia o totobola como meio de ganhar dinheiro a troco de palpites certeiros. E ninguém levantou a voz a pedir o fim desse jogo, mesmo quando se comprovaram irregularidades graves (em Itália, por exemplo).
Para muito boa gente, é inadmissível que árbitros ou atletas possam apostar no resultado de determinada partida em que participem. Compreendo o argumento. Só não percebo é por que razão isso é problemático se for feito nas casas de apostas da net e pacífico se os visados, publicamente, preencherem um anónimo boletim de totobola.
Aposto que este tema ainda vai fazer correr muita tinta!
PS - Para que não restem dúvidas: costumo fazer apostas na net. E também já joguei no totobola, lotaria, "raspadinha", totoloto, euromilhões e "joker". E já fui a casinos e salas de bingo. Até ver, penso que não cometi nenhum delito! Nem enriqueci...