O meu clube

Manuel Boto
Manuel Boto

Benfica no pós-Covid

Dizer que esta pandemia apanhou o futebol de surpresa é dizer o óbvio – toda a sociedade civil e empresarial foi completamente surpreendida, apesar dos rumores sobre um tal vírus existente na China e que ninguém antecipou devidamente a chegada ao resto do Mundo.

Donde o futebol não poderia ser exceção. Mas há setores e setores e o futebol foi claramente um dos mais atingidos. Por duas razões essenciais: (i) as próprias características do jogo, muito de contacto que não permite como noutros espetáculos ou indústrias o distanciamento salutar; e (ii) vivia há muito numa bolha económica em que muitos dos seus agentes estavam já falidos e só faltava dizer que "o Rei vai nu".

Feita a introdução, a realidade é que a Covid-19 encontra o futebol profissional português numa fase totalmente descapitalizado e sobretudo sobredimensionado para a economia nacional. Há equipas a mais na 1.ª Liga e ainda é pior o cenário na 2.ª Liga. Se formos para o futebol amador, o cenário económico é desolador, como se pode ver pelos salários em atraso ainda antes da crise no Campeonato de Portugal.

Não sendo o artigo de matriz económica devo, contudo, relembrar que o PIB português per capita (cerca de 20.700 euros antes da pandemia) é apenas o 17.º da União Europeia, mas os campeonatos da 1.ª e 2.ª Liga contam com 18 equipas cada. Ou seja, as mesmas equipas que a Alemanha, que tem um PIB per capita de 41.300 euros. Como não seria de esperar que o futebol português esteja economicamente depauperado?

O Benfica aparece como rara exceção no deserto português, com uma situação económica e financeira equilibrada num conjunto de equipas com dificílimos problemas financeiros. Ou seja, a pandemia, pelo encerramento da atividade económica, apenas acelerou o que estava adiado, sobretudo a montante do ‘futebol profissional’, alimentado com verbas bem elevadas, nomeadamente pela via da publicidade e promoção. Pelo meio, umas transferências de valores absurdos em que se afirmando serem integralmente liquidadas, acredito que em muitas das vezes existiriam complexos encontros de contas com situações cruzadas ou trianguladas que um dia alguém haverá de decifrar.

Mas o Benfica, pese embora a sua situação, não vai ficar imune. Resiste melhor e mais tempo pela marca consolidada que tem, mas vai ter de fazer um ‘downsizing’ significativo. Como todos certamente, de certeza não tanto como os seus principais rivais. Mas na escassez de sponsors, na certeza da diminuição de valores nos próximos anos, a espiral de verbas que alimentava um orçamento de mais de 200 milhões com transferências de atletas, uma estrutura de 600 pessoas e uma equipa de futebol principescamente paga a nível nacional, com mais de 100 jogadores contratualizados, vai ter de acordar para realidade.

Ou seja, as estruturas terão de ser reduzidas. Por exemplo, na área comunicacional que tanto alimenta as guerras e os ódios fomentados de parte a parte entre Benfica e Porto, terá de ser reduzida. Ou ainda, não se pode ter uma BTV com tantos colaboradores e opinadores, na esmagadora maioria sem qualquer criticidade e defensores do ‘partido LFV’, tudo em nome da união benfiquista em que pensar diferente é garantia de ser arrasado por aqueles. Ou nem tantos comerciais e de marketing quando o produto a vender não constitui prioridade atual na reconstrução da economia conforme Fernando Gomes (presidente da FPF) já reconheceu.

Adicionalmente, o Benfica não se pode deixar adormecer em cima da presunção de inocência que deve defender com toda a legitimidade, tendo de resolver todos os dossiês que envolvem o seu nome e se encontram pendentes porque minam a credibilidade institucional. Não adianta clamar aos sete ventos a inocência sem que a mesma fique inequivocamente provada. O Benfica de Cosme Damião (e do seu contemporâneo e amigo Virgílio Paula, meu avô), de Joaquim Bugalho, de Duarte Borges Coutinho, de Fernando Martins, dos irmãos Vieira de Brito, entre tantos outros, precisa de sair disto imaculado.

O betão não é o desígnio do Benfica. Construir foi necessário no seu tempo e Vilarinho e LFV foram essenciais, gravando o seu nome na história do Clube. Mas tudo tem a sua dimensão e a sobre-dimensão traz custos insustentáveis. Não vamos ter anos de construir campos e hotéis no Seixal ou em Oeiras, desperdiçando recursos para o que o que faz falta e move as multidões que o Benfica alimenta.

Nas chamadas amadoras, o Benfica é e será para mim um clube sempre eclético ou não fosse eu o promotor das quotas para as modalidades que ainda hoje prevalecem facultativamente. Mas terão de definir claramente quais as prioridades. O Benfica não é nem pode ser um clube que se limite a participar galhardamente. Ao participar tem de ser para ganhar. Pode não ganhar como não ganhou tantas vezes – mas compete para ganhar em nome da sua história. Cada um tem as suas preferências, a direção do clube que lá estiver após as eleições de outubro lá estará para decidir.

Finalmente, o futebol profissional. Tantas vezes discuti com os atuais dirigentes quais as políticas desportivas em que acreditava até me afastar porque este Benfica virou nos últimos anos uma plataforma comercial de transações, sobretudo desde a ‘parceria estratégica’ com Jorge Mendes. Compreendo parcerias, mas as únicas estratégicas são com os sócios do clube e acionistas da SAD. As outras são instrumentais, sem submissão a interesses de terceiros mesmo que circunstancialmente coincidam com os nossos.

Desejo um Benfica autónomo a reerguer-se desta crise pandémica inequivocamente na liderança do futebol profissional, mas uma liderança tanto desportiva como de princípios e valores. Sermos capazes de nas estruturas nacionais do futebol pugnarmos por arbitragens de competência, por conselhos de disciplina que sejam isentos, por dirigentes nacionais que sendo de qualquer clube demonstrem integridade e hombridade.

Vamos ter de reajustar as estruturas de futebol profissional? Seguramente. Vamos ter de facto de apostar num Seixal como alfobre da equipa principal? Sim e não. Sim - porque se de dois em dois anos tivermos jogadores a entrar na equipa principal, o investimento fica justificado. Não - porque só com Seixal não saímos da cepa torta. Temos de ter equipas competitivas internacionalmente porque isso é ‘ser Benfica’ e estas só se conseguem com equilíbrios entre a formação e compra cirúrgica de jogadores de outras nacionalidades, mas sempre com um mínimo de ‘calo’ para acrescentar mais valia imediata (ou com boa probabilidade de isso acontecer) e não ao quilo a ver se dão boas transações no futuro.
Em conclusão, ou teremos a capacidade de continuar a surpreender, inovando na gestão, ou ficaremos confinados à regionalidade ibérica e, mesmo essa, periférica.

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