O BENFICA criou, no passado recente, graves problemas a si próprio, sobretudo porque espalhou, despreocupadamente, uma profunda desconfiança à sua volta.
Os antigos episódios de pagamentos atrasados, exagerados ou não, manipulados ou não, condicionaram a vida do clube, e o conhecimento de outros factos, ou o inevitavelmente muito forte eco resultante desses outros factos, agravaram a situação.
O Benfica é um grande clube europeu e não podia, por isso, esperar que as difíceis situações vividas pelo clube no plano financeiro tivessem sido rapidamente esquecidos.
A Europa foi registando todos os elementos da vida benfiquista dos últimos anos e foi acompanhando as polémicas “encarnadas” e percebendo a complexa engenharia financeira a que o clube se entregou para sobreviver, ou para conseguir manter-se no topo, contratando jogadores sem ter aquilo... com que se compram jogadores.
Para além disso, a Europa teve acesso, naturalmente, às sucessivas, pouco sensatas e contraditórias declarações dos dirigentes do clube numa série de casos muito mediatizados e foi ouvindo, também, as reclamações de protagonistas alegadamente lesados pelo clube da Luz, por exemplo Souness que, na própria Noruega, referiu, de forma muito crua e impiedosa, que o Benfica não tinha dinheiro.
Por isso, o Rosenborg, que é um clube que alcançou algum prestígio europeu e que não passa ao lado das questões do futebol, quando viu o Benfica aproximar-se interessado em Rushfeldt, ficou na defensiva. Lembrou-se de todos os episódios anteriores que tiveram o Benfica no centro e alarmou-se com as declarações de Souness.
No momento do negócio, o contrato foi feito, previa o pagamento faseado da verba acordada e os dirigentes do clube norueguês terão reclamado uma garantia bancária que evitasse problemas no futuro, já que o pagamento dos valores da transferência se estenderia por doze meses.
Tratou-se, creio eu, de uma atitude natural e isso surge traduzido em múltiplas declarações. O director desportivo do Rosenborg, por exemplo, confirmou o pagamento da primeira fatia da transferência, mas sublinhou a expectativa com que aguardava a chegada da garantia bancária que cobrisse o restante do valor do negócio.
O próprio José Capristano, vice-presidente do Benfica, admitiu que pudesse faltar a garantia bancária, que era, no entanto, acrescentou, uma questão entre bancos e que se o Benfica ainda não tinha enviado a garantia bancária, estava “a horas de o fazer”.
Neste processo, muito cauteloso, por parte do Rosenborg, fica apenas uma dúvida que é a que resulta da ordem de regresso dada ao jogador, quando ainda faltavam dois dias para o fim do prazo dado para satisfação das exigências colocadas, sendo, porém, também verdade que o clube poderia ter impedido a deslocação do jogador para o estágio “encarnado” até estarem ajustados todos os pontos acordados, incluindo esse da garantia bancária.
O gesto de boa vontade do Rosenborg foi, por alguma razão, anulado e admito, nesse caso, alguma intervenção perversa que enervou os dirigentes noruegueses e os levaram a uma decisão eventualmente precipitada.
Este episódio da saga, não anula a realidade com a qual o Benfica, em minha opinião, deve confrontar-se, que é a que resulta de ser hoje uma entidade pouco credível e sendo essa realidade justa ou injusta, é a que se coloca e não há nenhuma outra saída que não seja aquela que é pragmática, a que impõe ao Benfica não a colocação de exigências mas a aceitação, ou não, das exigências dos outros.
O clube português está, como confessou Vale e Azevedo, muito fragilizado no plano económico-financeiro, e também está agora fragilizado no plano da credibilidade e tem de viver com isso, sabendo que desperta desconfianças, que põe os parceiros de negócios na defensiva, que pode enfrentar até eventuais hostilidades por manter, apesar da fragilidade, uma atitude de arrogância que é mal aceite.
No fundo, a situação do Benfica, por muito que custe aos dirigentes, sócios e adeptos do clube, é aquela que resulta das opiniões norueguesas, reflectidas na capa de “A Bola”, ontem, sexta-feira, com Rune Bratseth, director desportivo, a perguntar por que razão o Benfica não envia a garantia bancária e Nils Eggen, treinador, a afirmar que se o Benfica não tem dinheiro não compre jogadores.
E no meio de tudo, há outra posição norueguesa, que é dramática, para o Benfica, na referência ao facto de ter o Rosenborg “uma boa imagem junto das instituições que regem o futebol”, uma frase que deixa implícita a ideia de que o Benfica não tem boa imagem e isto é tão verdade que até as decisões podem resultar simplesmente disso, da questão da imagem.
O Benfica tem de saber lidar com esta nova realidade, depois dos polémicos episódios do passado. Deve saber lidar com esta desconfiança internacional. Deve fazer negócios sem deixar qualquer ponta de dúvida. Deve relacionar-se por forma a não despertar qualquer suspeita. Deve comportar-se de forma a recuperar a credibilidade perdida. Deve ter um discurso coerente. Não deve seguir caminhos que podem parecer muito semelhante ao que seguiu outrora.
Se este processo-Rushfeldt falhar e se o jogador não vier, terá o Benfica visto alargar-se a sua fama de clube habilidoso mas mau pagador e terá adiado por muito mais tempo a incontornável tarefa de recuperar a credibilidade perdida.