O meu clube

Tiago Silva
Tiago Silva

É preciso outra gestão

De acordo com o estudo publicado pela Deloitte em janeiro de 2020 intitulado ‘Football Money League’, na última época mais de 50% das receitas correntes dos 20 clubes mais ricos do Mundo foram provenientes das receitas comerciais (36,05%), como seja venda de merchandising, patrocínios e prémios de participação nas competições europeias, e da receita de bilheteira (15,5%).

Ora, devido aos efeitos da Covid-19, quer as receitas de bilheteira, fruto dos jogos à porta fechada cujo fim à vista permanece longínquo, quer as receitas comerciais, devido à quebra de rendimentos das famílias e dos negócios dos patrocinadores, irão ser fortemente afetadas, levando os clubes mais ricos a terem menos capacidade e disponibilidade financeira para ‘investir’ no mercado, o que fará com que as transferências no futebol europeu sejam fortemente afetadas quer em termos de volume, que o Internacional Centre for Sports Studies estima em cerca de 28%, quer em termos de valores, o que acarretará uma inevitável desvalorização dos principais ativos dos clubes (jogadores), a qual, de acordo com o Transfermarkt, se situa já nos 20%.

Isto é particularmente relevante para a indústria do futebol em geral, mas para o FC Porto em particular por duas ordens de razões:

1. Porque o cumprimento do acordo do fair play financeiro celebrado entre o FC Porto e a UEFA em 2017, e que teria o seu término este ano, dependia da capacidade de o FC Porto realizar este ano mais valias com transações de jogadores superiores a 70 M€, o que apontava para um valor total de transferências superior a 100 milhões de euros (isto porque para o apuramento da mais-valia tem de se descontar ao valor da venda os custos relativos ao mecanismo de solidariedade, comissões de intermediação e o abate do valor contabilístico do ‘passe’ do jogador vendido).

2. Porque 5 dos principais jogadores do FC Porto terminam contrato em 2021 (Otávio, Aboubakar, Marega, Alex Telles e Soares), o que obriga a que se procurem realizar as respetivas transferências este ano.

3. Porque as necessidades de liquidez do FC Porto para fazer face às suas operações correntes e ao stock líquido de dívida de curto prazo (cerca de 90 M€) também exigiam vendas avultadas (note-se que sendo o pagamento de uma transferência faseado no tempo, o que por norma sucede é que esses contratos são dados como colaterais junto de uma instituição financeira para antecipação do crédito sobre o clube comprador).

Ora, mesmo dando como certo que a UEFA não extrairá este ano consequências do incumprimento do acordo do fair play financeiro, ainda assim o forte abalo que o mercado de transferências sofrerá não deixará de ter forte impacto na tesouraria e nas contas do FC Porto, sendo que o corte temporário de 40% na massa salarial durante estes dois meses de paragem competitiva será, em larga medida, ‘consumido’ pela perda de receita de bilheteira e da venda de merchandising durante este período.

Dito isto, urge trilhar caminhos alternativos em termos do que tem sido a gestão desportivo-financeira do FC Porto e procurar soluções que permitam ao FC Porto ganhar o presente sem colocar (ainda mais) em causa o futuro.

Concretizando:

1. Impõe-se, desde já, e conforme já o disse publicamente, fazer uma reestruturação financeira do passivo do FC Porto, passando dívida de curto para médio e longo prazo, o que só poderá ser feito com o acordo dos credores, sendo que aqui incluo o reembolso do empréstimo obrigacionista de 35 M de euros que se vence no próximo mês de junho dado que as atuais condições de mercado não garantem a subscrição de um novo empréstimo obrigacionista que permita, como tem sucedido até aqui, liquidar o que se irá vencer.

2. Reduzir a massa salarial do plantel e Administração da SAD pois é insustentável que os custos com pessoal ‘consumam’ mais de 70% das receitas correntes do FC Porto, como tem sucedido. Esta redução, em virtude dos contratos com os jogadores serem plurianuais, terá de ser gradual mas é imperiosa para a sustentabilidade financeira do FC Porto.

3. Ponderar outras formas de aumentar os proveitos operacionais do FC Porto, como seja a venda do naming do estádio do Dragão, como já fizeram vários clubes europeus (Bayern Munique, Arsenal, Man. City, At. Madrid, sendo que o próprio Barcelona está em negociações para o fazer). A atual conjuntura económica não aconselha a que esta operação avance no imediato mas deverá dar-se passos nesse sentido logo que a economia mundial comece a dar sinais de retoma, sendo que o naming do estádio do Dragão poderia valer cerca de 5 M€ / ano.

4. Apostar cada vez mais e melhor na formação, sendo que para isso é essencial que a academia de formação do FC Porto veja, de uma vez por todas, a luz do dia. O paradigma desportivo do FC Porto tem de passar pela formação, integrando todos os anos jovens jogadores da sua formação no plantel principal por forma a potenciá-los e valorizá-los, obtendo o devido retorno em termos desportivos com a sua utilização e financeiro com a sua futura alienação, sendo que esta política desportiva permitirá ainda baixar a massa salarial do plantel do FC Porto.

5. Investir no melhoramento e alargamento da rede de scouting quer para reduzir cada vez mais a margem de erro nas contratações, quer para que o FC Porto volte a ser ‘o’ clube que contrata talento desconhecido a baixo preço para depois o dar a conhecer ao futebol europeu.

Contudo, tudo isto só resultará se a gestão da SAD do FC Porto for objeto de uma alteração profunda quer em termos de modelo quer em termos de ‘rostos’.

É imperioso que o FC Porto volte a ter um verdadeiro administrador para o futebol que, conjuntamente com um administrador financeiro rigoroso e competente que tenha sob a sua alçada toda a gestão da SAD, funcionem como um corpo só e sob a liderança de um presidente conhecedor do futebol e dos seus meandros.

Desta forma, o sucesso desportivo, que anda sempre aliado ao sucesso financeiro, continuará a estar cada vez mais próximo.


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