Furtivamente, como é índole da espécie, os modernos garimpeiros da globalização vão instilando no seu alvo preferido, que é o consumidor, a ideia de um novo tempo onde para tudo o céu é o limite. E quem persista em situar-se cá em baixo, cultivando prudências contra possíveis refluxos da abundância prometida, não colhe outra serventia que não seja a de engrossar as míticas fileiras dos velhos do Restelo.
Fazedor de lucros fartos e trampolim para projectos de carreira que noutras instâncias também os garantem, o futebol não poderia escapar às novas regras de uma sociedade de insaciáveis apetites. Também ele tinha de dar mais, de alongar até ao infinito todos os seus aliciantes com valor de mercado.
Reconheça-se que os modernos ofícios de exploração do jogo da bola têm porfiado bastante e com eficácia. Em meia dúzia de anos o dinheiro jorrou do espectáculo em medida antes insuspeitada. E a garimpa não se dá por saciada. Promete ir mais longe e mais fundo, tendo o céu como limite. Só que no futebol, como em tudo, existem limites contra os quais acabará por esbarrar mesmo a mais desenvolvida ciência manipuladora das apetências de consumo. Desde logo os limites do calendário onde se regula o tempo. Já não há por onde multiplicar datas que ao mesmo tempo enquadrem as competições indescartáveis e contemplem novas provas de clubes e selecções visionadas para todas as escalas regionais, com extensão planetária. Depois, subsiste o limite da condição humana dos intérpretes do jogo, insusceptível de aperfeiçoamentos inesgotáveis. A capacidade de produzir espectáculo por parte dos jogadores está à beira de ficar completamente exangue. E não havendo forma de produzir em laboratório o que só nasce por indecifrável código genético, que é o talento, não será possível garantir a multiplicação de jogos pela multiplicação das referências de qualidade daqueles que dentro do campo promovem a sua venda.
Todos estes limites a que o futebol não pode escapar, estão hoje na fronteira onde se esgotam. Há jogos a mais na televisão; os jogadores são chamados a um esforço que para além de ficar próximo de uma desumana apropriação das suas capacidades físicas e anímicas, lhes cerceia inevitavelmente o rendimento técnico; nenhum artifício é recusado, quando necessário, para desdobrar competições atractivas, como é o caso da versão actual da “Liga dos Campeões”, onde cabe um número de clubes que não tem nada a ver com a verdade da única selecção desportiva que outorga esse título em cada campeonato nacional e em cada ano.
Alguém vai ter um dia de descer à terra para conter esta desenfreada corrida, antes que ela acabe por produzir os efeitos perversos que todos os excessos acarretam. Se o público cansar da fartura e os jogadores enfartarem do esforço, como será possível regressar a modelos desportivamente sustentáveis depois de adquiridos os actuais hábitos de vida?
Ninguém pode esperar que a moderação parta daqueles que nas margens do jogo apenas estão interessados em sorver dele benefícios económicos. Esses, se o negócio se esgotar, partirão sem cerimónias à procura de um novo produto que venda. É dentro de si próprio que o futebol tem de resguardar-se dos abusos de utilização da sua popularidade. Para isso existem as federações nacionais e as confederações que delas emanam, onde é suposto não se ter esgotado ainda a raiz desportiva do jogo e a sua independência face à cupidez do poder económico. É o dique que resta para suster a corrente. Oxalá ele não esteja já irremediavelmente minado pela sedução do dinheiro e confundido com a ideia de não haver nenhum limite para o uso do futebol como negócio.