FIGURA controversa e carismática do cinema português, não deixa ninguém impassível: há quem odeie os seus filmes e há quem defenda ser o único génio da sétima arte portuguesa. A estreia nacional de “As Bodas de Deus” culmina uma trilogia iniciada com “Recordações da Casa Amarela”, com prosseguimento em “A Comédia de Deus”. O protagonista João de Deus (interpretado pelo próprio João César Monteiro) ocupa já um lugar inarredável na galeria do cinema nacional. Benfiquista que não “põe os pés” no Estádio da Luz desde que Vale e Azevedo assumiu a presidência, simpatiza também com a Académica e… o FC Porto. É admirador de Luís Figo.
- Como vai essa afeição pelo Benfica?
- Mudo frequentemente de camisola, porque não tenho convicções na matéria. Tenho uma vaga simpatia pelo Benfica, tenho uma vaga simpatia pela Académica e tenho uma vaga simpatia pelo FC Porto. Há aqui uma grande salada. Isto não é muito habitual, pois não?
- Mas gosta de futebol.
- Gosto de futebol, mas agora deixei de ir ao Estádio da Luz, porque jurei que não punha lá os pés enquanto o dr. Vale e Azevedo fosse presidente do Benfica, o que tenho cumprido. Não gosto do lado fascizóide e do lado pouco escrupuloso do dr. Vale e Azevedo. Não há seriedade nenhuma.
- E sobre a qualidade do nosso futebol?
- Essas coisas são sempre muito relativas. Comparativamente com o pouco que conheço do futebol que se joga na Europa (Inglaterra, Espanha, Itália), suponho que o nosso deve ser dos piores.
- Surpreendeu-o a atribuição do Euro-2004 a Portugal?
- Eu preferiria, muito francamente, que a coisa fosse em co-produção com a Espanha. Penso que tem melhores condições.
- De qualquer forma, é da opinião que é um acontecimento positivo para a visibilidade do País.
- Para a visibilidade? Sim, se acha que o País é um estádio de futebol. Mas é bom, sem dúvida, para a construção civil, para a indústria hoteleira, para as televisões.
- Poderá haver um paralelismo entre o sucesso do futebol e do cinema em Portugal?
- Comparativamente, anda ela por ela. Há pouca gente nos estádios de futebol e se calhar há pouca gente nos filmes portugueses. Se calhar há mais gente nos filmes americanos.
- É a favor das quotas específicas para a exibição de filmes portugueses? - Não sou a favor nem deixo de ser. É uma questão muito complicada. Tão complicada que ainda não foi resolvida.
- Qual é o futebolista e o actor portugueses que mais gosta de ver actuar?
- No futebol é um rapaz que se chama Luís Figo. Actores que eu goste mais de ver? Não tenho assim um em especial. Mas seguramente não é o Joaquim de Almeida. Ah, já sei. O meu preferido é o professor Carrilho. Não é um actor de cinema, é um actor de televisão. É um excelente comediante.
- Como é que a política para o cinema poderia ser melhorada?
- As políticas podem sempre ser melhoradas. É bom para toda a gente e para os políticos. Tenho ideias concretas sobre o assunto, mas não é oportuno estar a revelá-las.
- Já há projectos na gaveta?
- Tenho uma “Branca de Neve” em preparação há dois dias. É um drama que ainda não tem estreia prevista. Primeiro é preciso fazê-lo. Os americanos é que estreiam primeiro e fazem depois.
LUÍS NUNES