O jogo da verdade ou consequência consiste na escolha que é dada entre poder participar no jogo com uma resposta verdadeira ou, em alternativa, com a habilidade de uma ação altamente comprometedora. O futebol moderno faz o seu jogo atolado no embuste da mentira e acaba, quase sempre, por arcar com as piores consequências. Ultrapassa a linha, atira-se para fora de jogo. Mente aos adeptos, dribla-se a si mesmo, encomenda os piores encómios. E, ainda assim, continua a ser o jogo mais bonito do Mundo.
Não havia mentira alguma naquelas manhãs em que acordava em júbilo por saber o que ia fazer nas tardes de um domingo como o de hoje. Era dia de jogo. Sabia que ia subir a Fernão Magalhães pela mão do meu pai ou do meu avô, bandeira a repousar no ombro, encostada em suspensão à parte mais acolchoada do pescoço. Um mano-a-mano em direção às Antas. Depois, o turbilhão. O aglomerado nas portas, a saga da procura dos cartões e dos bilhetes nos bolsos, o porteiro com sorriso complacente que facilitava a entrada ao miúdo escondido nas asas do adulto. Lá dentro, as multidões. Não me soube a mentira quando bebi champanhe pela primeira vez na vida, a chorar convulsivamente de joelhos em frente à Grundig da sala quando Juary marcou o segundo e, pouco depois, levantámos a Taça dos Campeões Europeus. Já haveria mentira, só que eu não sabia, podia ser fabulação. Não quer dizer que não suspeitasse depois daquela final da Taça das Taças perdida para a Juventus. Mas era ainda o Mundo a fazer-se de puro, Madjer a suceder a Jean-Marie Pfaff na capa da ‘Onze’ no quiosque da rua, o microuniverso dos cromos da caderneta, o tempo dos jogadores que, a seguir aos jogos, só se pelavam era por umas boas cartadas no autocarro.
O futebol mudou. Era de um romantismo goleador, mas mudou. O que antes eram jogos florais entre amadores, voltaram a ser, agora, serviços políticos ao regime, jogos de guerra com candidatos a ‘kamikaze’ que não se rogam ao sacrifício de passar pelo arame farpado de cumplicidades várias. Impunidade e especulação. Fundos e sociedades anónimas, fair play financeiro que protege os ricos e desampara os fracos, OPA’s fraudulentas, paraísos fiscais enquanto se proíbe a participação de terceiros nos direitos económicos dos jogadores, malas e agentes que não são bem gente ou gente de bem, transferências de valor quintuplicado num cabaz de jogadores de lavandaria, denunciantes presos e perseguidos, apostas e manipulação de resultados, VAR com linhas tortas, clube com transmissão exclusiva dos seus próprios jogos em casa, denúncias de corrupção a jogadores pela boca dos mesmos, tribunais com bichos que furam terras e bytes, justiça incompreensível e assimétrica, empréstimos sucessivos de jogadores que nunca calçaram e outros empréstimos de jogadores à laia de direitos de preferência, salários pagos à custa de autocarros e campos de treino, claques organizadas e outras ditas anónimas que passeiam apoios, mercados sul-americanos de jogadores com olheiros exauridos sem que os mercados europeus sejam minimamente explorados, comissões que dão comichão, salários e prémios exorbitantes, dependência mórbida entre competidores na mesma competição.
O FC Porto não é imune a todo este contexto e parte do romantismo perdeu-se. Mas o romance está todo lá. O FC Porto está sempre convocado a escrever novas páginas de glória. O que pode fazer? Organizar-se, modernizar-se, rejuvenescer. Redimensionar o futuro à escala do seu passado e das suas conquistas de Liberdade. Valorizar a experiência de quem sabe, sem deixar de saber a sangue novo. Com algumas exceções, temos sabido honrar os nossos símbolos e a nossa História. Não será por acaso que a esmagadora maioria dos jogadores ou treinadores que entram no clube, saem portistas ou reforçados no seu portismo. Formas várias de levar o clube no coração. Os adeptos, aqueles que nunca abandonam, alimentam-se desse passado mas também de menos silêncios, respostas para o presente e de visão para o futuro.
A ligação ao território, sobretudo a Norte, tem de ser reforçada. A lógica nunca poderá ser a de fazer família com vizinhos. Mas essa implicação social na malha fina do território, o reforço da obra social do clube, a manutenção do clube no lado certo da História, a luta contra o racismo e a luta pela diversidade, a manutenção de um canal televisivo na equação do desaparecimento da comunicação social a Norte no contexto de um Estado centralista, impelem o clube a ser – como sempre foi – um brasão inequívoco na luta contra a macrocefalia e a contra um país desigual, cada vez mais limitado às geografias de poder que não se importam de extinguir todo um país que, na realidade, desconhecem. No futebol, mesmo que tal signifique uma perda parcial de receitas imediatas, só uma mais equitativa distribuição das receitas dos direitos televisivos pode promover uma maior autonomia dos clubes mais frágeis, libertando-os da relação de dependência e das ajudas cúmplices de quem goza agora de maior poder financeiro e exerce toda a sua influência de poder.
A prova da falta de sustentabilidade da indústria do futebol é que um negócio que movimenta milhões de euros, passado um mês, já não tem capacidade para pagar salários de centenas. Será inevitável redimensionar o quadro de pessoal e do plantel, contendo a massa salarial de forma transversal a todas as áreas. Ninguém perdoará se não fizermos deste tempo, agora, o tempo da maior exigência. Mais e melhor gestão na relação entre o interesse desportivo e a racionalidade económica, atrativa de ‘naming’ para o estádio e que mantenha o capital da SAD nas mãos do clube, alavanca de parcerias duradouras internacionais e parcerias estratégicas nacionais implicadas na visão de um projeto mais amplo.
A aposta nas camadas jovens deve ser reforçada, sólida, real e motivadora para que os melhores possam, efetivamente, acreditar em chegar à equipa principal e serem aposta. Mais do que criar expectativas, é imperioso geri-las e concretizá-las. Dar presente aos jogadores e fazer futuro. Formar, jogar e vender não pode ser coisa para um par de anos. O FC Porto deve ser sempre um objeto de estudo, participativo na vanguarda tecnológica e na metodologia de processos, intensificando a ligação às universidades. A massa crítica nunca dispensou fermento.
O FC Porto do presidente Pinto da Costa, ao contrário de alguns, nunca teve medo algum da democracia. Nenhum medo da pluralidade e da inclusão. Num momento particularmente difícil em que os adeptos não poderão ir ao estádio, o futebol confinado não pode leiloar lugares entre ricos. Sentido crítico, mas para agregar sempre, dividir nunca. E não precisamos de nos superar. Só precisamos de olhar mais para o que vamos ser do que para o que já fomos.