A Igreja Católica fixou o seu jubileu para este ano 2000. O desporto, o único movimento multitudinário que atravessa todas as religiões e, com sobressaltos ocasionais, lança pontes de convivência sobre divisões étnicas e religiosas, convoca também este ano a sua grande reunião olímpica. O sagrado e o profano, através das suas correntes mais representativas à escala planetária, partilham a magia do número. Apesar do justo alvoroço dos rigoristas da cronologia, devemos reconhecer que 2000 é um marco mais eficaz para anunciar a passagem a uma nova era. Este efeito sensível que é tão próprio de certos números (alguns filósofos, como os pitagóricos, chegaram a proclamar números mágicos e proporções divinas) terá uma repercussão especial no desporto, conferindo aos próximos Jogos de Sidney uma posição crítica na história do movimento olímpico e do fenómeno desportivo contemporâneo. Embora não declarado, 2000 também constitui, para o desporto, um ano de jubileu.
É bem possível que 1996, a data dos Jogos de Atlanta, não tivesse o conteúdo simbólico que os gregos lhe quiseram atribuir, reclamando para si a celebração do centenário das Olimpíadas da Era Moderna, porque o número carecia desse efeito sensível. Há quatro anos, interesses mais prosaicos impuseram-se à legitimidade histórica. Hoje, é a Austrália que reclama a glória de dirigir a apoteose do primeiro século do desporto, tal como o conhecemos nos nossos dias.
Exceptuando talvez alguns previsíveis incómodos do “bug” informático, a viragem do calendário não vai alterar a contínua sucessão das obras humanas. Em relação ao desporto, contudo, o ano 2000 é uma oportunidade aritmeticamente correcta para procedermos a um “balanço do século” e ousarmos, ao mesmo tempo, uma leitura do futuro próximo.
Estas breves reflexões ocorrem num momento difícil para a reputação do desporto na sua mais alta expressão. Depois de um tribunal da Alemanha ter condenado vários médicos e treinadores da ex-RDA por dopagem sistemática de atletas de alto rendimento, o historiador Giselher Spitzer revelou que estas práticas custaram, naquele antigo país, uma média de trinta mortos por ano, ao longo de várias décadas. Entre a estimativa oficial de “só” cinco a nove mortos por ano e o inconcebível número apresentado por Spitzer, o verdadeiro valor terá sempre a dimensão de um hediondo crime de Estado, cometido em nome dos princípios belos e virtuosos que ajudaram ao triunfo de uma ideia de desporto ao longo do século XX.
Para muita gente, é irreprimível diabolizar um regime político e a sua utilização do desporto numa perspectiva estratégica interna e internacional. Contudo, os escândalos revelados desde o ano passado em diversas modalidades e a série de iniciativas judiciais e governamentais que desencadearam, comprovam que as democracias ocidentais não estão vacinadas contra a corrupção desportiva. O ano de 1999 foi, neste capítulo triste, o ano de todos os escândalos. Só a intervenção aberta e decidida de alguns governos e organismos desportivos, acompanhada pela acção das polícias e dos tribunais, deixou uma réstia de esperança na preservação dos valores inerentes ao acto desportivo.
A revelação mais recente envolve atletas italianos e lança suspeitas sobre a actuação do prof. Alfredo Conconi, um cientista e académico ilustre, com uma obra extensa e influente no domínio da fisiologia do desporto. O “teste de Conconi”, utilizado para determinar o limiar anaeróbico sem procedimentos invasivos, recolhas de sangue e outras artes sacrificiais tão detestadas por atletas e treinadores, tornou este nome familiar e respeitado na comunidade desportiva internacional.
A primeira reacção do prof. Conconi é, no mínimo, pouco convincente. Reconhece ter administrado EPO aos atletas mas, acrescenta, “com objectivos estritamente científico”. Ora, pergunta-se, o que são “objectivos estritamente científicos” quando o animal experimental é um atleta em actividade? E porquê só em atletas excepcionais, da elite mundial? E, se o objectivo era apenas científico porque foi mantido secreto, sendo conhecidas as consequências que impendiam sobre os atletas, caso viesse a descobrir-se o seu envolvimento, voluntário ou involuntário, naquelas experiências?
Este caso oferece uma boa oportunidade para reflectirmos sobre o que leva o desporto a confundir de tal modo pessoas notáveis e responsáveis, ao ponto de expô-las a imprudências e erros de cálculo inadmissíveis quer no plano da ética desportiva quer no da ética médica e científica.
Que sedução, que poder hipnótico encerra o desporto, levando tanta gente e tantas instituições a fraquejar na vigilância dos seus poderes e das suas responsabilidades?
Que representa, afinal, este desporto que, a cada passo, apresenta as suas perversões como uma consequência natural e inevitável do progresso dos seus principais actores - os atletas?
Estas e outras questões deveriam suscitar um debate fecundo ao longo deste ano de jubileu do desporto mundial, com celebração marcada para Sidney, daqui a alguns meses. O mais provável, infelizmente, é que o esplendor dos estádios continue a prevalecer sobre o mundo cinzento dos bastidores.