JOÃO CARTAXANA: Um pentacampeão real sem agitar fantasmas

1. O discurso estafado de Vale e Azevedo contra o "sistema" já não colhe sequer entre a maioria dos benfiquistas, junto de quem "caiu mal" que tivesse considerado virtual o título conquistado pelo FC Porto. E "caiu mal" fundamentalmente por duas razões: por reconhecerem que esta época foi aquela em que, nos últimos dez anos, a equipa portista foi menos beneficiada pelas arbitragens e que esse factor não teve qualquer influência na decisão do título; e por sentirem que o mérito do FC Porto foi, também, o demérito dos outros, em particular do Benfica, que nestes últimos cinco anos não dispusera de uma chance tão flagrante de quebrar a hegemonia do rival. Mais: que Vale e Azevedo tem responsabilidades nessa oportunidade perdida pela cobertura e apoio incondicional que sempre prestou a Souness, fazendo-o sentir que tinha margem de manobra para os desmandos de vária ordem que cometeu e que conduziram à situação em que a equipa se encontra.

O FC Porto foi um campeão real e merecedor. Cometeu menos erros que os seus principais adversários e soube gerir e superar períodos turbulentos e difíceis ao longo da época, como, por exemplo, o que se seguiu à eliminação frente ao Torreense, para a Taça, ou a saída de Doriva, bem compensada com a aquisição de Vítor Baía, que se revelou importante na arrancada para o penta. De realçar o bom uso que foi feito com os "restos" dos rivais, através do renascimento de Peixe, que o FC Porto foi buscar à "prateleira" de Alvalade, e a confirmação de Deco, a quem Souness "não via" qualidade para integrar o plantel do Benfica.

Desta vez, para ganhar, não foi preciso adoptar um discurso guerrilheiro ou agitar o fantasma dos inimigos externos. A atitude civilizada de Fernando Santos constituiu uma lufada de ar fresco. Transmitiu uma imagem limpa, dialogante, simpática e até de uma certa humildade em contraste com a apologia da intolerância, da arrogância e da divisão do País entre o Norte e o Sul. Era tudo menos fácil a um treinador de Lisboa, logo "mouro" genuíno, e ainda por cima conotado com o Benfica, fazer um discurso pedagógico e subjacente a uma lógica estritamente profissional. Mas ele fê-lo, e manteve-se coerente mesmo nos momentos em que foi fortemente contestado, designadamente após a eliminação da Taça.

2. Um grupo representativo de empresários veio a público denunciar, com casos concretos, o que classificam como comportamento eticamente reprovável do empresário José Veiga e o que entendem ser relações de promiscuidade entre este e alguns responsáveis da Sporting SAD nos mais recentes negócios das transferências de jogadores.

Os casos relatados são demasiado graves para deixarem de ser investigados e apuradas as devidas responsabilidades. A Sporting SAD não podia deixar de reagir e prepara uma queixa à Procuradoria-Geral da República, com pedido de investigação à Polícia Judiciária e participação à Direcção-Geral das Contribuições e Impostos. Mas nem os seus responsáveis nem o empresário visado, que faz menção de avançar com queixas-crime nos tribunais, vieram a público negar o que foi denunciado. Negar que nunca chegou a Alvalade uma proposta de 4 milhões de dólares para comprar Saber; negar o acordo entre Paulo Abreu e o Monaco para a transferência de Beto por 7 milhões de dólares; negar que Marcos foi negociado à revelia do seu empresário, Jorge Mendes, e que foram pagos 50 mil dólares de comissão a José Veiga, ou seja, metade do valor do empréstimo; negar que houve pressões junto do jovem internacional Paulo Costa para rescindir com o seu empresário, Paulo Barbosa; negar que Washington veio à revelia do seu empresário, Leo Rabelo, e que foi a empresa de José Veiga a comprar o seu passe ao Paraná para de seguida vendê-lo ao Sporting; negar os aliciamentos para rescisões dos contratos de Bakero, Hugo Leal e Romeu com os seus legais representantes.

De resto, do grupo de empresários citado, só Jorge Mendes fez negócios com o Sporting. Ele e José Veiga. Seria, de facto, curial que se investigasse tudo aquilo que o Sporting pretende que se investigue.

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