REVELAR e discutir na Comunicação Social os salários das profissões, que nos recordemos, não é comum. Tão-pouco em relação às remunerações escondidas dos titulares de cargos e empresas públicas, suportadas pelo dinheiro de todos nós, contribuintes. O que revelaria, porventura, situações bem mais insólitas e chocantes, que as de um profissional do espectáculo desportivo, cujo mercado acolhe valores remuneratórios elevadíssimos. E ajudaria a perceber que uma refeição paga a antigos colaboradores com o cartão de crédito de uma empresa municipal de que se já não é titular, ou o desdobramento do bilhete de avião para se fazer acompanhar pela mulher, são apenas trocos.
Os profissionais de futebol parecem ser uma excepção. Eles que não são sequer os desportistas profissionais de rendimentos mais elevados. Mas uma excepção que comporta no seu interior uma outra: a de que os rendimentos elevados de uma minoria fazem esquecer um outro lado. O dos salários em atraso, dos contratos não cumpridos, das condições de exercício profissional inaceitáveis, das vidas amputadas na ilusão de uma carreira desportiva com sucesso.
O que se passou com a transferência de Luís Figo é a esse título curioso. Durante semanas mobilizou a atenção da Comunicação Social. Foi tema de intervenções públicas de analistas e comentadores políticos. Todos - salvo poucas excepções - para justificar o que justificado estava: um qualquer profissional tem todo o direito de gerir a sua vida profissional vendendo o seu trabalho a quem lhe oferece melhores condições. De remuneração, de trabalho, ou de ambas. Sintomaticamente, o que poderia ser interessante, no contexto de um mundo crescentemente despido de valores e de princípios, ficou por debater. Saber se é socialmente aceitável que esse direito - o de ganhar mais - seja obtido com sacrifício da honestidade da palavra e da transparência dos procedimentos. Se o dinheiro compra tudo, porque tudo tem um preço, incluindo a própria dignidade pessoal. Um assunto bem mais actual e necessário que os valores de um contrato, num mundo onde o negócio parece obedecer à lógica do mais despudorado capitalismo selvagem.
O que motivou a transferência de Luís Figo nas palavras recentes do próprio não foi o dinheiro. Razões? Um dia as revelará. A sua polémica transferência ganha assim o estatuto de tabu. O que dá novo pretexto de comentário ao prof. Marcelo Rebelo de Sousa e ao deputado Manuel Alegre, que, como se sabe, em matéria de tabus, têm a experiência dos especialistas, habituados que estão ao assunto, nas respectivas famílias políticas. Mas a questão de fundo - a verticalidade de procedimentos -, essa permanece actual. E não é necessário recordar anteriores declarações e comportamentos do próprio. Basta reler as suas declarações após o Euro-2000. Que valor têm agora as suas próprias palavras? Porque não é censurável um profissional de futebol aceitar uma transferência porque ela lhe permite melhores condições contratuais. A questão é bem outra. E Luís Figo conhece-a.
Há momentos, todos o sabemos, em que o silêncio vale ouro. O profissional de futebol que detém o recorde da transferência mais cara do futebol mundial bem faria em se dedicar apenas ao que sabe fazer tão bem e de forma que a todos nos encanta: jogar futebol. E não convocar a opinião pública para justificações que estão longe de valorizar a sua imagem como pessoa. Sobretudo para os que não têm a memória curta. E para aqueles que entendem que o talento desportivo não é incompatível com uma postura de responsabilidade com o que se afirma. E com o que se faz.
