O mais recente relatório do Observatório do Futebol (CIES) revela em cru o que já sabíamos: a Liga Portugal é a 5ª liga mais faltosa do mundo, com uma média de 29,3 infrações por jogo, e a 10ª com mais cartões amarelos mostrados, com uma média de 5,3 por partida.
Comparando com uma realidade que tão bem conheço, a Bundesliga, onde apenas 22,2 faltas são assinaladas por jogo e a média de cartões amarelos fica nos 3,5, torna-se evidente como o futebol português está refém de uma cultura de interrupções constantes e assumido anti-jogo. O resultado? Menos tempo útil de jogo, pior espetáculo e uma desvalorização do produto "Liga Portugal", do jogador português, e da nossa arbitragem, no contexto internacional.
As grandes ligas europeias geram receitas milionárias com os direitos de transmissão porque oferecem um futebol dinâmico e atraente. Na Premier League, e na Bundesliga, o espetáculo é valorizado pelo ritmo intenso e pelo tempo útil de jogo elevado. Na Liga Portugal, com constantes interrupções, jogos fechados e polémicas sem fim em torno das arbitragens, afasta telespectadores e reduz a capacidade de negociar a transmissão dos nossos jogos para fora do espaço da Lusofonia. Sejamos francos, por essa Europa fora, ninguém assiste à Liga Portugal e o mesmo não acontece com uma liga supostamente mais fraca como é o caso da primeira divisão dos Países Baixos, só para dar um exemplo.
Se a média de tempo útil de jogo em Portugal ronda os 53 minutos, na Bundesliga este valor sobe para 58-60 minutos. Ou seja, quem paga para ver futebol na Alemanha vê, de facto, mais futebol, enquanto que em Portugal boa parte do jogo é composta por discussões, simulações e "faltas táticas". Como competir num mercado global quando o produto oferecido é inferior em qualidade e quantidade?!
E este futebol da "falta e da faltinha" também reflete nas prestações nas competições europeias. Os clubes portugueses, quando enfrentam adversários das principais ligas, demonstram gritantes dificuldades de adaptação a um ritmo mais intenso e com menos interrupções. A consequência é quase sempre imediata: maior desgaste físico e erros em momentos cruciais das eliminatórias.
O problema não afeta apenas os colectivos, mas também os jogadores que tentam singrar em campeonatos mais competitivos. A Bundesliga é um dos mercados mais exigentes do mundo, com um ritmo altíssimo e pouca tolerância para pausas no jogo. É exatamente por essa razão que tão poucos jogadores conseguem dar o salto da Liga Portugal para a Alemanha.
João Cancelo e Raphael Guerreiro, por exemplo, chegaram à Bundesliga já preparados para o nível físico e tático exigido, pois vinham da Premier e da Ligue 1 respetivamente. Mas o que dizer da transferência do Renato para o o Bayern ou de outras menos mediáticas que ficaram perdidas no esquecimento dos adeptos? A mentalidade vigente de desaceleração do jogo e de uso e abuso da paragem do jogo como ferramenta estratégica não prepara os jogadores para um futebol mais rápido e objetivo.
Se nada for feito, o nosso futebol continuará em rota divergente da elite europeia. A arbitragem tem de endurecer a penalização de simulações e perdas de tempo, os clubes, e os media inclusive, devem incentivar um jogo mais positivo, e a Liga Portugal tem de adotar incentivos positivos que aproximem o nosso futebol dos melhores exemplos europeus.
Enquanto que na Alemanha jogam futebol, aqui perde-se tempo, e está na hora de mudarmos o chip.