Opinião

Pedro Peres Master in Sports Psychology

Manter o "chip"

Passados os jogos entre seleções estamos de volta aos campeonatos e competições nacionais de futebol. Dizem alguns treinadores ser agora necessário "mudar o chip" para enfrentar outros adversários e diferentes equipas. Coisa algo estranha esta de mudar o pensamento quando é suposto continuar a fazer o mesmo, ou seja, jogar à bola. Até parece que quando mudamos o lado ao vinil, queiramos fazer algo diferente de ouvir um bom som com novas letras e acordes.

De facto, os treinadores falam regularmente em mudança quando se alteram apenas o tipo de competição e os adversários a enfrentar. Esta observação poderá criar-nos ainda mais perplexidade quando a ciência nos vai apontando um caminho divergente deste parecer. Não são poucos os estudos que nos remetem para a necessidade de inovar, de fazer diferente e de apresentar novos desafios tendo em vista a manutenção da motivação das equipas e a pré-disposição dos atletas para fazer mais e melhor.

No sentido oposto, é igualmente consensual, que as atividades altamente repetitivas e com baixo nível de imprevisibilidade são mais trabalhosas para os líderes na medida em que, se por um lado apresentam uma forte componente de segurança e essa condição confere estabilidade e, por vezes algum relaxamento, ao mesmo tempo tendem a provocar maior resistência à focalização pela profunda monotonia de que se revestem.

Sabemos que o atleta, e o jogador de futebol em particular, gosta naturalmente de atuar pelo prazer retirado da atividade por si mais apreciada. Independentemente da competição ou do adversário, o desportista consome a adrenalina do jogo como se pudesse apenas viver disso mesmo. Ele respira o treino como o ar que inspira. Realiza cada exercício como a prova oral que mais testa os seus limites. Ele defende um penálti e sente-se qual guardião do cerco medieval mais hostil. Ele marca um golo e apresenta-se a si mesmo como o maior de todos os Alexandres da história universal.

Ora, se assim é, podemos facilmente depreender que a questão das alternâncias de competição passará mais pela manutenção do "chip" e menos pela sua mudança. Acredito que a tarefa do treinador deverá centrar-se sobretudo na constância do rendimento, pois é esse desígnio que poderá ser o garante de abordagens, da mesma forma, regulares por parte dos atletas.

Convenhamos que esta missão será mais trabalhosa, até pela criatividade e conhecimento transversal que exige aos líderes. No entanto, terá maior probabilidade de sucesso uma vez que possui a faculdade de nunca estar dependente de alterações de competição ou adversário, mas da atitude dos seus jogadores perante cada novo desafio. Esta estratégia e visão dos técnicos deverá visar a preparação holística do jogador, não para ganhar aquele ou qualquer outro jogo, não para vencer aquela ou qualquer outra competição, mas sim para atingir o seu máximo potencial, capacidade e rendimento em todo e qualquer momento competitivo. O segredo estará então, na capacidade do treinador preparar os seus atletas para que estejam sempre capazes de oferecer o seu melhor sejam quais forem as circunstâncias contextuais onde se venha a desenrolar a prestação.

Nos dias de hoje, e dado o elevado número de jogos realizados anualmente pelas equipas mais fortes, a competência do treinador para manter níveis de motivação e empenhamento ganha uma relevância considerável, mas esta disponibilidade mental para a competitividade não pode estar pendente do gabarito dos adversários e sim do que a equipa está disponível para fazer por si mesma a cada jogo, qualquer que seja o seu grau de dificuldade.

A motivação e o foco não podem estar reféns dos "chips", caso contrário as equipas menos fortes, que disputam menos competições, estariam sempre próximo de lutar pelos lugares cimeiros da tabela classificativa e não estou em crer que isso seja uma realidade concreta.

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